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domingo, 22 de abril de 2018

Por que mataram Jesus? Por que Jesus morreu? (Parte IV)


Nesta postagem vamos concluir essa série de reflexões que estamos fazendo procurando dar algumas respostas a todas as questões que foram surgindo nesse caminho.
Essas foram as questões que deixamos em aberto na postagem passada: existe algo de bom na cruz? Como pode haver salvação na morte de cruz de Jesus?[1]
O Novo Testamento nos apresenta quatro caminhos explicativos usados pelos primeiros cristãos para tratar dessas questões. Eles buscam no Antigo Testamento os elementos interpretativos para tentar explicar a salvação por meio da cruz de Jesus.
Um caminho é o do sacrifício de Jesus. A carta aos Hebreus, especialmente, utiliza essa linguagem: a morte de Jesus na cruz foi seu sacrifício que, diferente dos outros sacrifícios, foi aceito por Deus e por isso pode trazer salvação. O Novo Testamento traz várias passagens sobre a pessoa de Jesus e sua missão em linguagem cultual sacrifical.[2] A instituição do sacrifício, tanto no Antigo como no Novo Testamento, é uma das instituições que tem por objetivo solucionar o problema de como vencer a infinita distância que separa o homem de Deus. Desse modo, a morte de cruz de Jesus é interpretada dentro desse universo de sentido.
Outro caminho é o da nova aliança. O tema da aliança entre Deus e os homens é central no Antigo Testamento. Essa aliança era selada com “sangue”, por isso se associou a cruz de Jesus com o tema da aliança: seu sangue é o sangue da nova aliança predita por Jr 31,31-34. Essa explicação inclui a salvação que o tema do sacrifício produz, ou seja, o tema do perdão dos pecados, entretanto, essa nova aliança vai além, pois se trata de uma nova forma de vida, é plenitude da fé, a confissão firme da esperança, da caridade e das boas obras.[3]
O servo de Javé de Isaías é outro caminho explicativo adotado para tratar da salvação que a cruz de Jesus traz.[4] O Novo Testamento usa frequentemente partes das passagens do servo sofredor para explicar realidades importantes referentes às escolhas e à missão terrena de Jesus.[5] Jesus, como Filho de Deus, era inocente, os sofrimentos que carregou são os que outros deviam carregar e, desse modo, seu sofrimento se converte em salvação para os outros.
Além dos temas já tratados, ainda resta o quarto caminho que é o desenvolvido por Paulo. Para ele a cruz é a forma de remeter os cristãos a Jesus de Nazaré e de corrigir e criticar desvios.[6] Portanto, a pregação do crucificado é essencial, pois dela depende a verdade da fé. Ela também é salvífica porque, exatamente por ser escandalosa, a cruz pode se constituir em autêntica “revelação” de Deus. Na Segunda Carta aos Coríntios, Paulo acentua o aspecto salvífico da cruz, explicando em que consiste a salvação da cruz.[7] Paulo também proclama agradecidamente o fato de que, pela cruz de Jesus, a fraqueza máxima se transformar em força, a pobreza em riqueza, o egoísmo em descentramento, a divisão em reconciliação, o negativo em positivo.
O que podemos tentar concluir de tudo isso? Qual (ou quais) resposta(s) podemos encontrar para as perguntas que levantamos até o momento? Gostaria de apresentar duas perspectivas que considero muito significativas para essa reflexão e que acredito que podem ser respostas provocativas para nossa vida cristã.
Diante de tudo o que apresentamos, está claro que o Novo Testamento não afirma que é o sofrimento doloroso na cruz que produz salvação ou que só há salvação porque houve o sofrimento de Jesus.
O que fica evidente, em primeiro lugar, é que Jesus com toda sua vida foi agradável a Deus, ou seja, apareceu o agradável a Deus entre nós porque apareceu uma vida vivida no amor até o fim. Por isso Jesus na cruz foi aceito por Deus, assim como os sacrifícios têm que ser agradáveis a Deus para serem aceitos por Ele.
Deus não se compraz e nem exige o sacrifício da cruz de Jesus. É a totalidade da vida de Jesus, da encarnação a cruz, que é agradável a Deus. É a encarnação verdadeira de Jesus, num mundo de pecado, que o leva à cruz, e a cruz é o produto de uma encarnação verdadeira.
O salvífico consiste em ter aparecido sobre a terra o que Deus quer que seja o ser humano.[8] O Jesus fiel até a cruz é salvação: é a revelação do homo verus (“O ser humano verdadeiro”). Essa revelação do ser humano verdadeiro é boa notícia e por isso já é em si mesma salvação, pois por meio de Jesus e de sua cruz sabemos quem somos.
O verdadeiro amor atravessa o sofrimento, pois quem ama enfrenta obstáculos. Quem tenta exercer a misericórdia para com os outros e salvá-los tem que estar disposto a sofrer. A morte de Jesus na cruz está dentro dessa dinâmica do amor.
Justamente porque os seres humanos puderam ver o amor sobre a terra na totalidade da vida de Jesus, saber o que eles são e o que devem e podem ser, a cruz de Jesus, como culminação de toda sua vida, pode ser compreendida salvificamente.
Antes de concluir, é preciso dizer que a cruz de Jesus também nos revela algo sobre Deus.
A vida e a cruz de Jesus não eram para fazer mudar a atitude de Deus em relação aos seres humanos. O próprio Novo Testamento diz, audaciosamente, que o próprio Deus tomou a iniciativa de se fazer presente em Jesus.
Jesus é iniciativa de Deus e a cruz (escandalosamente) também é: “Deus entregou seu próprio Filho por nós”.[9] Jesus é o sinal histórico no qual Deus expressa seu irrevogável desejo salvífico em relação a nós. É o amor que salva e a cruz é expressão máxima do amor de Deus.[10] A cruz de Jesus marca a iniciativa e a credibilidade do amor de Deus.
Não sabemos por que Deus escolheu esse caminho, se haveria outro melhor, mas o que não se pode negar é a força desse caminho como testemunho do seu amor.
Por que Jesus morre? A resposta que conseguimos encontrar é a resposta do amor total pela humanidade: um Deus conosco (encarnação), um Deus para nós (sua vida), um Deus a mercê de nós (sua paixão e morte de cruz).




[1] Como o objetivo desse blog é desenvolver uma reflexão acessível, não é possível fazer uma exposição densa sobre todos os pontos desse tema. Porém, coloco a seguir uma lista bibliográfica a partir da qual essa reflexão se desenvolve. Fica a dica para a pesquisa dos leitores e leitoras:
- BARBAGLIO, Giuseppe. Jesus, hebreu da Galileia: pesquisa histórica. São Paulo: Paulinas, 2011.
- HORSLEY, Richard A.; HANSON, John S.. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995.
- REICKE, Bo. História do tempo do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2012.
- SCARDELAI, Donizete. Movimentos messiânicos no tempo de Jesus: Jesus e outros messias. São Paulo: Paulus, 1998.
- SEGUNDO, Juan Luis. A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré: dos sinóticos a Paulo. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1997.
- SCHILLEBEECKX, Edward. Jesus, a história de um vivente. Tradução: Frederico Stein. São Paulo: Paulus, 2008.
- SCHNEIDER, Theodor (Org.). Manual de dogmática – v.I. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
- STEGEMANN, E. W.; STEGEMANN, W. História social do protocristianismo: os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.
- SOBRINO, Jon.  Jesus, o libertador: I – A história de Jesus de Nazaré. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1992.
- THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico: um manual. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2004.
[2] 1 Cor 5,7; Ap 5,9; Rm 3,25; 5,9; Ef 1,7; 2,13.
[3] Hb10,22-24.
[4] Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13 – 53,12.
[5] Mt 12,18-21; 11,10; Jo 1,32-34; Mt 3,17; Jo 8,12; Lc 4,18, 7,23 etc.
[6] Gl 3,1; 1Cor 1,17-18.
[7] 2 Cor 5,15; 8,9; 13,4; 5,19.
[8] Mq 6,8.
[9] Rm 3,28; cf. Jo 3,16.
[10] Rm 8,32; Jo 3,17.

domingo, 15 de abril de 2018

Por que mataram Jesus? Por que Jesus morreu? (Parte III)


Nas postagens anteriores tratamos da questão “por que mataram Jesus?”. Responder a essa questão é relativamente fácil, pois podemos recorrer ao contexto histórico, à pesquisa sobre Jesus e aos elementos presentes nos Evangelhos que nos permitem ver, mais explicitamente, todo o conjunto de fatores sociais, político e religiosos que desembocaram em sua morte.
Entretanto, a outra questão é um pouco mais delicada, pois por trás dela está um dado da fé dos primeiros cristãos que se refere à identidade de Jesus. O anúncio das protocomunidades cristãs afirmava que Jesus era o messias, Filho de Deus. Isso gerou uma problemática que era a seguinte: se ele é o Filho de Deus por que ele morreu crucificado? Qual a razão da sua morte?[1]
Pode parecer bobagem, mas alguém que foi enviado por Deus, morrer assim, não fazia sentido. “Deus não estava com ele?” Sua morte trágica soaria como um atestado de que ele não era o enviado de Deus, que ele seria um impostor, pois Deus o abandonou na cruz.
Para enfrentar essa questão, os primeiros cristãos precisaram desenvolver uma reflexão que os ajudassem a entender o sentido da morte de Jesus. Vamos fazer juntos esse caminho, mesmo que de forma breve.
Os primeiros cristãos buscaram nas Escrituras (Antigo Testamento) luzes para entender a morte de Jesus. Uma primeira perspectiva que surgiu foi ver a cruz como o destino de um profeta.[2] Essa explicação é compreensível, pois está baseada na própria tradição de Israel e iluminava as primeiras perseguições vividas pelas comunidades cristãs. Essa explicação unia o destino de Jesus e o destino dos profetas, ao mesmo tempo em que associava também as comunidades a esse destino.
Outro caminho para tentar responder ao “por que Jesus morreu” foi afirmar que a cruz era necessária.[3] Apelou-se em última instância para Deus, para que ao menos em Deus a cruz tivesse sentido. Essa postura parte da honestidade das comunidades de que não se conseguia entender a tragédia que se abateu sobre Jesus e que só Deus saberia dizer algo. Por outro lado, esse discurso mostra a teimosia destas mesmas comunidades em manter a esperança, afirmado que deve haver algum sentido no que aconteceu com Jesus mesmo que não saibamos ou consigamos entender.
Entretanto, se aceitarmos a explicação da cruz apelando para o mistério de Deus, para Sua vontade, ou seja, Jesus morreu porque foi a vontade de Deus, naturalmente surge outra pergunta: POR QUE JESUS MORREU DESSA FORMA E NÃO DE OUTRA?
Essa pergunta se torna importante se lembrarmos que o Deus cuja vontade foi a morte de Jesus na cruz não é qualquer Deus. Tanto para os judeus como para Jesus, Deus é bom, liberta os oprimidos, defende a vida do justo, quer a vinda do Seu reino; é um Deus a quem Jesus chama de “abba” (“painho”). Por isso, o Novo Testamento vai nos apresentar a busca dos primeiros cristãos pelo sentido da cruz na morte de Jesus. Em outras palavras, procura-se responder a uma nova questão: EXISTE ALGO DE BOM NA CRUZ, JÁ QUE ESSE FOI O DESÍGNIO DE UM DEUS BOM?
A resposta formal que geralmente ouvimos quando perguntamos isso a um cristão fiel é que a cruz de Jesus é algo sumamente bom por seus efeitos sobre a humanidade, ou seja, porque pela cruz de Jesus Deus nos salvou. Porém precisamos aprofundar um pouco melhor o sentido dessa afirmação. É preciso esclarecer o que há especificamente na cruz que a torna mediação de salvação e remissão dos pecados, em outras palavras, como pode haver salvação na morte de cruz de Jesus.
Vamos procurar responder a essas questões na última postagem dessa série próxima semana.




[1] Como o objetivo desse blog é desenvolver uma reflexão acessível, não é possível fazer uma exposição densa sobre todos os pontos desse tema. Porém, coloco a seguir uma lista bibliográfica a partir da qual essa reflexão se desenvolve. Fica a dica para a pesquisa dos leitores e leitoras:
- BARBAGLIO, Giuseppe. Jesus, hebreu da Galileia: pesquisa histórica. São Paulo: Paulinas, 2011.
- HORSLEY, Richard A.; HANSON, John S.. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995.
- REICKE, Bo. História do tempo do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2012.
- SCARDELAI, Donizete. Movimentos messiânicos no tempo de Jesus: Jesus e outros messias. São Paulo: Paulus, 1998.
- SEGUNDO, Juan Luis. A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré: dos sinóticos a Paulo. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1997.
- SCHILLEBEECKX, Edward. Jesus, a história de um vivente. Tradução: Frederico Stein. São Paulo: Paulus, 2008.
- SCHNEIDER, Theodor (Org.). Manual de dogmática – v.I. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
- STEGEMANN, E. W.; STEGEMANN, W. História social do protocristianismo: os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.
- SOBRINO, Jon.  Jesus, o libertador: I – A história de Jesus de Nazaré. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1992.
- THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico: um manual. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2004.
[2] 1 Ts 2,14s; Rm 11,3; Mt 23,37; Mc 12,2s.
[3] Lc 24,26; Mc 8,31; At 2,23; 4,28.

domingo, 8 de abril de 2018

Por que mataram Jesus? Por que Jesus morreu? (Parte II)

Julgamento no Sinédrio
Ao olharmos para a morte de Jesus nos deparamos com duas forças que se movimentam para levá-lo a morte: as autoridades religiosas e o poder político romano. Isso aparece quando observamos os dois processos pelos quais Jesus passa antes de ser morto crucificado.
Jesus é morto mediante dois julgamentos: um religioso e outro político.[1]
O julgamento religioso ocorre porque Jesus entra historicamente em conflito com os líderes religiosos de seu tempo e, por isso, será também condenando teologicamente em nome de Deus. Ele foi acusado de blasfêmia e de ameaçar destruir o Templo,[2] porém ao examinarmos melhor como Jesus desenvolveu seu ministério, parece ser mais sensato concluir que os membros da casta sacerdotal estavam irritados por ver que Jesus se erigia em reformador religioso dos usos cultuais vigentes em seu tempo, questionando a posição e a interpretação oficial.
Jesus diante de Pilatos
No julgamento político, Pilatos vê em Jesus um líder popular que, como outros, poderia começar um levante e isso o tornava uma ameaça. Os Evangelhos tratam desse processo político de forma mais “branda”, quase que aliviando a responsabilidade do poder político romano sobre a morte de Jesus,[3] porém os dados históricos sobre a administração de Pilatos na Judeia permitem conhecer um personagem diferente do que aparece nos Evangelhos. Pilatos era duro e rápido em reprimir qualquer suspeita de rebelião. Ele não distinguia entre movimentos armados ou movimentos proféticos populares como o de Jesus. Para ele todos poderiam ser movimentos de oposição ao domínio romano e, portanto, uma ameaça de revolta popular.
As acusações que os Evangelhos apresentam no processo de Jesus diante de Pilatos permitem entrever como as autoridades romanas viam qualquer movimento suspeito: como algo politicamente perigoso, com discursos subversivos, e como uma possibilidade de rebelião contra a dominação romana.
O que confirma essa perspectiva do julgamento político é que Jesus morre crucificado como um malfeitor político. Morre com o tipo de morte que só o poder político romano podia dar. O tipo de morte que era aplicada àqueles que eram considerados uma ameaça para a ordem política romana.
Por que mataram Jesus? Por seu tipo de vida, pelo que disse e pelo que fez.
As autoridades religiosas e a aristocracia judaica julgaram e mataram Jesus em nome de Deus, em nome da daquilo que eles achavam que era a vontade de Deus, para manter a pax romana controlando todo e qualquer movimento que pudesse se tornar problemático, para manter o status da religião que lhes garantia poder e prestígio.
O poder político também julgou e matou Jesus em nome de seu “deus”, o imperador César, porque seu movimento foi identificado como potencialmente perigoso, para evitar qualquer possibilidade de problemas com o seu grupo, enfim, por ele ser considerado “inimigo de César”.
A morte de Jesus não foi um erro. Ela foi consequência de sua vida. E a vida de Jesus foi consequência de sua encarnação concreta, ou seja, ele encarnou-se em um mundo e em uma história que geram exclusão e morte. Ao tomar partido em defesa das vítimas desse mundo e dessa história, ele assumiu as consequências.
Jesus foi morto porque ele incomodava com suas ações e com sua palavra. E quando alguma coisa incomoda logo procuramos um jeito de nos livrarmos dela!
Foi por tudo isso que mataram Jesus!
Resta-nos ainda outra questão: por que Jesus morreu?
Vamos continuar falando sobre isso na próxima postagem.




[1] Como o objetivo desse blog é desenvolver uma reflexão acessível, não é possível fazer uma exposição densa sobre todos os pontos desse tema. Porém, coloco a seguir uma lista bibliográfica a partir da qual essa reflexão se desenvolve. Fica a dica para a pesquisa dos leitores e leitoras:
- BARBAGLIO, Giuseppe. Jesus, hebreu da Galileia: pesquisa histórica. São Paulo: Paulinas, 2011.
- HORSLEY, Richard A.; HANSON, John S.. Bandidos, profetas e messias: movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo: Paulus, 1995.
- REICKE, Bo. História do tempo do Novo Testamento. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2012.
- SCARDELAI, Donizete. Movimentos messiânicos no tempo de Jesus: Jesus e outros messias. São Paulo: Paulus, 1998.
- SEGUNDO, Juan Luis. A história perdida e recuperada de Jesus de Nazaré: dos sinóticos a Paulo. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1997.
- SCHILLEBEECKX, Edward. Jesus, a história de um vivente. Tradução: Frederico Stein. São Paulo: Paulus, 2008.
- SCHNEIDER, Theodor (Org.). Manual de dogmática – v.I. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
- STEGEMANN, E. W.; STEGEMANN, W. História social do protocristianismo: os primórdios no judaísmo e as comunidades de Cristo no mundo mediterrâneo. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 2004.
- SOBRINO, Jon.  Jesus, o libertador: I – A história de Jesus de Nazaré. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1992.
- THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette. O Jesus histórico: um manual. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2004.
[2] Blasfêmia: cf. Mt 26,64; Mc 14,62; Lc 22,67; Jo 10,24. Sobre o templo: cf. Mt 26,61; Mc 14,68; Jo 2,19.
[3] Muitos estudiosos entendem que essa atitude presente nos Evangelhos reflete o contexto da época em que estes foram escritos. Seus autores (que escreveram entre os anos 60 e 90 d.C. os Evangelhos) teriam procurado evitar polemizar com as autoridades romanas, pois as comunidades já estavam sofrendo represálias da parte poder romano. Entretanto, documentos da época e a obra de Josefo oferecem interessantes informações sobre a personalidade e as ações de Pilatos na Judeia entre os anos 26 e 36 d.C. que nos permitem sustentar essa linha de pensamento.

domingo, 11 de março de 2018

Acabando os ricos, acaba a pobreza? (Parte II)

Antes de dizer qualquer outra coisa, gostaria de recordar as questões levantadas na postagem passada e que ainda estamos tentando responder: acabando com os ricos, acabamos com a pobreza? Ser rico é uma coisa ruim? Como enfrentar o problema da pobreza? E os ricos e a riqueza, como ficam em relação a toda essa situação?
Quero começar apresentando alguns dados. Segundo vários sites de notícias,[1] pude levantar as seguintes informações:

- 5 (cinco) bilionários brasileiros têm mais dinheiro que a metade mais pobre do país.
- No mundo, 82% de toda a riqueza gerada em 2017 ficou nas mãos do 1% mais rico da população, enquanto 3,7 bilhões de pessoas não obteve nada.
- Os 1% mais ricos concentra 28% de toda a renda no Brasil.
- Os super-ricos (0,1% da população brasileira hoje) ganham em um mês o mesmo que uma pessoa que recebe um salário mínimo (937 reais) - cerca de 23% da população brasileira - ganharia trabalhando por 19 anos seguidos.

Esses dados revelam uma brutal desigualdade na distribuição da riqueza tanto no Brasil como no mundo. Esses dados devem nos fazer pensar que algo não está certo, algo está faltando, algo deveria ser feito para tornar essa situação mais justa.
Riqueza significa que alguém tem acumulado mais do que precisa para viver. Independente dos meios utilizados para adquiri-la, a riqueza é sinal de um excesso e esse excesso vai fazer falta em algum lugar pelo simples fato de que não existe excesso suficiente para todo mundo, porque o mundo não possui riquezas em excesso suficientes para todos.
Não quero demonizar as pessoas ricas como se ser rico fosse sinônimo de ser egoísta, ser uma pessoa má, ser uma coisa ruim. Entretanto, não dá para olhar esses dados acima e ficarmos indiferentes!
Como cristãos, voltemos mais uma vez o nosso olhar para Jesus e seus discípulos para tentarmos ver quais foram as pistas que eles nos deixaram para lidar com essa realidade.
Nos textos do Novo Testamento podemos encontrar várias passagens sobre como os cristãos deveriam lidar com a riqueza, com os bens, e os cuidados que deveriam ter, ou seja, podemos descobrir uma ética para lidar com essa realidade.
Já vimos na postagem anterior a questão da renúncia, do desapego, da liberdade diante da riqueza para poder seguir Jesus. Em outros textos Deus se apresenta como aquele que vem em favor dos pobres,[2] mas para com os ricos Ele se mostra severo e exigente,[3] inclusive com duras ameaças.[4] A riqueza é passageira[5] e pode sufocar a semente da vida nova que o Evangelho semeou em nosso coração.[6] As pessoas que vivem em busca de riquezas acabam se tornando presas do Mal.[7] Por isso, a orientação para os ricos é a partilha, a generosidade solidária,[8] não colocar sua confiança na riqueza, mas saber empregá-la bem.[9]
Essas orientações podem ser muito bem atualizadas entre nós. Porque a questão aqui não é a riqueza em si ou ser rico, mas a falta de uma ética que oriente a justa distribuição dessa riqueza para que “não haja necessitados entre nós” (At 4,34).
Quero recordar ainda um dos Pais da Igreja, João Crisóstomo (século IV d.C.), que comentando um trecho do Evangelho segundo Mateus, disse: “Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora o abandonas ao frio e à nudez. Aquele que disse: ‘Isto é o meu Corpo’, [...] também afirmou: ‘Vistes-Me com fome e não me destes de comer’, e ainda: ‘Na medida em que o recusastes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o recusastes’. [...] De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra”.[10]
É preciso que entendamos que não se trata de simplesmente fazer sopão para distribuir, ou organizar feiras para os pobres no final do ano. Os cristãos devem ser os primeiros a se comprometer na busca por meios que permitam transformar de forma duradoura a realidade que apresentamos no início desse texto. Esses meios encontram-se no compromisso político e social, lutando por políticas públicas, projetos de desenvolvimento econômico e social, criação de leis, que favoreçam uma real distribuição de renda que permita a todos ter uma vida digna com direito ao trabalho, à saúde, à educação, ao transporte, à alimentação, à moradia, ao lazer, à segurança, à previdência social.[11]
Talvez o grande desafio para todos nós seja saber compartilhar, transformar a riqueza que acumulamos em um meio para transformar a realidade tornando-a mais justa e solidária. Isso exige uma conversão profunda dos valores que carregamos no coração, pois todos somos tentados a acumular, a sermos egoístas, a nos apegamos as coisas, inclusive as pessoas pobres também desejam ser ricas. É uma tentação presente no coração humano, a tentação do acumular, do “ter”.
Sei que isso pode parecer utópico, mas me parece que essa é a proposta do Evangelho de Jesus. A riqueza em si não é má se ela se torna um benefício para todos. Porém, quando ela se torna uma finalidade em si mesma, a riqueza gera injustiça, sofrimento e morte, pois as pessoas são instrumentalizadas em vista da riqueza.
O que o Evangelho de Jesus destaca é que as pessoas devem estar no centro e tudo mais deve estar a serviço da promoção da vida das pessoas. Então, tentando responder a pergunta: acabando os ricos, acaba a pobreza? Eu digo que não! O que acaba com a pobreza é a mudança dos valores que trazemos em nosso coração e que orientam o uso da riqueza. Um coração egoísta e avarento, apegado ao poder e ao prazer, jamais buscará uma transformação política, social e econômica em vista de colocar as riquezas a serviço da vida das pessoas. Um coração movido pelos valores do Evangelho de Jesus, ou seja, por uma ética do valor da vida humana, saberá que não precisa acumular bens, que a riqueza que conquistou deve ser colocada a serviço da promoção de uma vida digna para todas as pessoas.
Um provérbio no Antigo Testamento expressa bem o desejo de alguém que não quer sofrer com a pobreza, mas também não que ser seduzido pela riqueza. O autor pede a Deus: “Afasta de mim a falsidade e a mentira, não me dês nem pobreza nem riqueza” (Pr 30,8).
Portanto, para acabar com a pobreza deve-se solidarizar a riqueza, e se solidarizarmos a riqueza não existirão nem ricos nem pobres, existirão irmãos e irmãs. Esse me parece ser o caminho da Boa Notícia de Jesus!




[2] Lc 4,18
[3] Lc 1,53
[4] Lc 6,24; Tg 5,1-6
[5] I Cor 7,29-31; I Tm 6,7; I Tg 1,11
[6] Mt 13,22
[7] I Tm 6,9-10
[8] Lc 19,8; At 2,44-45; II Cor 9,6-15; Gl 6,6; Fl 4,10-20; I Tm 6,18; Hb 13,16
[9] I Tm 6,17-18; I Jo 3,17-18
[10] Cf. São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 50, 3-4: PG 58, 508-509.
[11] Esses são alguns dos direitos sociais previstos no artigo 6º da Constituição Brasileira de 1988.

domingo, 4 de março de 2018

Acabando os ricos, acaba a pobreza? (Parte I)

Outro dia eu li em uma rede social a seguinte postagem: “Para reduzir a pobreza, é preciso combater a riqueza? Acabando os ricos, acaba a pobreza?” Essa provocação suscitou vários tipos de comentários, sendo muitos deles defendendo políticas neoliberais, privatizações, entre outros comentários mais vagos e dispersos. Entretanto, o que me chamou a atenção para essa postagem foi a sutil provocação sobre o tema da opção pelos pobres assumida pela Igreja Católica na América Latina, incluindo a Igreja do Brasil. Percebi, na postagem e em alguns comentários, aquela crítica debochada de que esse negócio é “coisa de comunista”. Abaixo da pergunta estava escrito o seguinte convite: “Opine!”. Pois bem, vou opinar!
A discussão sobre a riqueza e a pobreza, sobre ricos e pobres, não é exclusiva do meio político. Ela sempre causou polêmicas também no meio religioso cristão católico. Com o advento da Teologia da Libertação na América Latina a partir de 1970, o tema da pobreza e da riqueza foi retomado com novo vigor diante de um continente marcado pela presença maciça de pobres, pelas desigualdades sociais, por regimes totalitários, pela concentração das riquezas, pela exclusão de milhares de pessoas dos meios básico para sobreviver. Debates acalorados sobre o problema da injustiça, da pobreza e das estruturas de pecado que impedem as pessoas de ter uma vida digna movimentaram boa parte dos encontros religiosos e teológicos que buscavam, à luz da fé, descobrir como transformar essa realidade.
Muitos discursos se levantaram para defender uma práxis religiosa que fizesse a opção pelos pobres e excluídos. Nesse contexto, também surgiram discursos duros e hostis aos ricos e a riqueza, criticando a ostentação, o acúmulo de bens e o não compromisso com as mudanças sociais e políticas necessária para produzir uma sociedade mais justa para todos. Então, as pessoas que eram católicas e que eram ricas começaram a questionar se Deus era só para os pobres, se ser rico e ter bens era pecado, pois eles tinham se esforçado para chegar a essa condição de vida, e que esse discurso excluía as pessoas ricas da Igreja e demonizava a riqueza. Afinal, Jesus não morreu pela salvação de todos? Todos não são filhos de Deus? Deus não ama a todos? Ter bens e poder gozar a vida é uma coisa ruim?
É preciso voltar os olhos para o Evangelho de Jesus para tentarmos entender qual é o caminho proposto por Ele para quem quer ser Seu discípulo. A partir disso podemos pensar a questão proposta no início desse texto.
Em relação à riqueza e a posse de bens, uma característica de Jesus presente nos evangelhos é o convite a deixar tudo para poder segui-lo. Em vários lugares encontramos essa exigência.[1] Parece que “ter coisas” pode criar dificuldades para quem quer ser seu discípulo.[2] Inclusive os evangelhos lembram que não dá para servir a Deus e ao dinheiro.[3] Parece que a relação com a riqueza e com os bens, no Novo Testamento, é uma relação complicada. Entretanto, o contexto que encontramos no ambiente do Novo Testamento ajuda a compreender esse discurso: a sociedade judaica na Palestina era profundamente desigual, na qual um grupo concentrava as riquezas e bens, enquanto a maioria da população sofria para sobreviver; os ricos exploravam o povo e faziam de tudo para manter sua posição e o Império Romano impunha pesados tributos que sobrecarregam especialmente os mais pobres. Não é por acaso que a riqueza é comparada, nos evangelhos, com uma divindade que escraviza as pessoas, gerando desigualdade, sofrimento e morte, impedindo as pessoas de viverem o mandamento do amor.
Sobre a pobreza podemos destacar duas dimensões nos evangelhos.
A primeira é a simbólica, da liberdade, do desapego. Por isso, deixar tudo, vender todos os bens e dar aos pobres, tornar-se pobre para seguir Jesus, é sinal da liberdade para fazer uma opção radical de vida, retirando toda confiança nos bens, no poder, na posse das coisas, para confiar unicamente em Deus.[4]
A segunda dimensão é o problema real e estrutural da sociedade que gera massas de pessoas excluídas do direito de ter uma vida digna, sem acesso aos meios básicos para sobreviver. Sobre isso, os evangelhos lembram que são com eles que devemos repartir nossos bens, nossas riquezas.[5] Lembra que é deles o Reino dos Céus;[6] e Jesus mesmo se identifica com eles ao dizer que socorrê-los, fazer o bem a eles, é fazer o mesmo por Ele próprio.[7]
Em outros textos do Novo Testamento vemos que a comunidade cristã procurou por em prática o ensinamento de Jesus. Eles procuravam partilhar as coisas e não permitir que alguém passasse necessidade na comunidade.[8] Inclusive chegaram a organizar uma grande coleta em todas as comunidades para socorrer os necessitados de Jerusalém.[9]
Entretanto, também encontramos textos em que pessoas com posses se tornaram membros da comunidade e colocaram seus bens a serviço, abrindo as portas de suas casas para que a igreja pudesse se reunir e auxiliando com seus bens as necessidades dos mais pobres. No próprio evangelho encontramos algumas mulheres ricas, casadas com homens de posses, que ajudavam a Jesus e seus discípulos com seus bens.[10]
Parece que essa tensão entre a riqueza e a pobreza não é coisa tão nova assim. Nos textos do Novo Testamento (sem levar em conta toda a tradição do Antigo Testamento) percebemos várias situações que, aparentemente, nos deixam mais confusos ainda. Afinal, acabando com os ricos, acabamos com a pobreza? Ser rico é uma coisa ruim? Como enfrentar o problema da pobreza?
Há uma frase no Evangelho segundo João que foi mal usada em um tipo de discurso religioso que queria justificar a existência da pobreza e dos pobres, desresponsabilizando as pessoas da necessidade de transformar essa realidade. Jesus teria dito que “pobres sempre tereis”.[11] Porém é uma interpretação que usa de má-fé, pois tira a frase de seu contexto. Por outro lado, essa frase expressa o grande desafio que é a realidade da pobreza, ou seja, ela não vai desaparecer facilmente dentro da história humana.
Isso significa que devemos nos acomodar e deixar as coisas como estão? A resposta, que permite também interpretar essa frase com clareza, é a resposta que o próprio Jesus deu com sua vida: ele nos amou até o fim![12] Na sua cruz, morreu por todos, inclusive por quem o executou, por quem nunca veio (ou virá) a acreditar nele, tão radical é seu amor.
Seguindo esse exemplo, a luta contra a pobreza deve ser constante, “até o fim”. Somente movidos por um amor radical, como o de Jesus por nós, é que poderemos permanecer firmes na luta para que todas as pessoas possam ter uma vida digna, mesmo diante da possibilidade de não conseguirmos atingir o nosso objetivo.
E os ricos e a riqueza? Como ficam em relação a toda essa situação?
Na próxima postagem vamos continuar discutindo essas questões!





[1] Cf. Lc 14,33;  Lc 18,22; Mt 4,18-22; Mt 6,19-21;  Mt 8,18-22; Mt 16,24-26.
[2] Mc 10,25.
[3] Mt 6,24; Lc 16,13.
[4] Mt 19,21-29
[5] Lc 12, 33-34; Lc 18,22; At 4,34-35.
[6] Lc 6,20.
[7] Mt 25,40.45.
[8] At 2,44; At 4,34-35.
[9] At 11, 29; At 24,17; Rm 15,26; I Cor 16,1-2; Gl 2,10.
[10] Lc 8,3.
[11] Jo 12,8.
[12] Jo 13,1.

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