Mostrando postagens com marcador história do cristianismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história do cristianismo. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de agosto de 2018

Como o Cristianismo moldou a figura de Satanás para combater outras religiões

Esta semana compartilho essa interessante REPORTAGEM DA BBC NEWS / BRASIL


Em uma biblioteca histórica na cidade de Tréveris, atualmente Alemanha, há um manuscrito feito provavelmente entre os anos 800 e 825 com o texto do livro bíblico do Apocalipse. Totalmente ilustrado com iluminuras. "Uma gravura mostra a luta do Arcanjo Miguel contra os anjos rebeldes. Nessa gravura, há dois grupos de anjos: os rebeldes e os que permaneceram fiéis a Deus. O interessante é que não há nenhuma distinção entre ambos os grupos, apenas a posição de cada um no quadro.
Essa é, talvez, a mais antiga representação dos demônios de que se tem notícia", diz Edin Sued Abumanssur, professor do departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
"Nele, o diabo é representado como um enorme dragão, mas seus companheiros rebeldes e decaídos são iguais aos anjos que os fizeram precipitar: têm asas, vestes longas, cabelos encaracolados. A única coisa que lhes falta é a aureola", descreve a jornalista e escritora italiana Paola Giovetti, no livro "L'Angelo Caduto" (o anjo caído).
Segundo Abumanssur, ao longo da história, observa-se uma correlação entre os momentos políticos e sociais e as representações do diabo. "No campo das artes, pictórica, escultórica ou literária, a tentativa de traçar um desenvolvimento cronológico da imagem do diabo dificilmente renderá bons frutos. Há contradições e permanências em diferentes formas de representá-lo, que se superpõem sem nenhum critério claro e apreensível", afirma o professor.
Até o século 11, conforme aponta o pesquisador, ele quase sempre foi retratado com aparência humana.
No Ocidente, a partir do ano 1000, o diabo começa a ser representado com aparência grotesca e monstruosa, entre o humano e o animal. "Na Idade Média, os processos imaginários não eram homogêneos. Grandes contingentes populacionais, espalhados por extensos territórios, em uma época na qual as comunicações e as trocas culturais eram lentas, fragmentadas e de baixa densidade, faziam com que diferentes compreensões e ideias sobre o diabo convivessem em mutualidade", diz o pesquisador.
"Podemos afirmar com alguma margem de segurança que, a partir do século 11, características não humanas da figura do demônio começam a ganhar certa hegemonia no meio da população embora ainda sobrevivam, por essa época, representações de anjos caídos que guardam proximidade com a figura do homem."
O escritor e semiólogo italiano Umberto Eco tratou dessa questão no livro "História da Feiura". "É somente a partir do século 11 que ele começa a aparecer como um monstro dotado de cauda, orelhas animalescas, barbicha caprina, artelhos, patas e chifres, adquirindo também asas de morcego", escreveu.
Vermelho e com chifres
Eco ressalta que "parece óbvio, também por motivos tradicionais, que o diabo deva ser feio". "O feio, sob a forma do terrificante e do diabólico, faz seu ingresso no mundo cristão com o Apocalipse de São João Evangelista. Não é que faltassem menções ao demônio e ao inferno no Antigo Testamento e nos outros livros do Novo Testamento, mas nesses textos o diabo é nomeado sobretudo tudo através das ações que realiza e dos efeitos que produz (as descrições dos endemoniados nos Evangelhos, por exemplo), à exceção do Gênesis, onde assume forma de serpente", dissertou o semiólogo. "Ele nunca aparece com a evidência 'somática' com que será representado na Idade Média".
A figura mais icônica do demônio, o ser vermelho, com rabo, chifres e tridente é uma construção paulatina e gradual. "Inicia-se a partir do século 11 um processo de sistematização dogmática da figura do diabo que tenta reunir em uma síntese tanto a teologia quanto as representações do imaginário social do período e que ao mesmo tempo venha em socorro das necessidades políticas de uma ordem medieval que começa a esboroar-se", aponta o sociólogo Abumanssur.
"A extensa iconografia do diabo dá testemunho da luta teológica e política, violenta não poucas vezes, que faz emergir aos poucos a figura de um senhor terrível, que subjuga os homens e mulheres na maldade. A imagem soberana, senhorial e majestática, inumana mesmo, do diabo, emerge lentamente no processo de consolidação do poder papal e da figura do rei autocrático como torreões de fortaleza capazes de resistir a um deus da maldade cada vez mais poderoso e antagonista da paz e da ordem."
Tal figura é a mescla da cultura erudita dos monges e teólogo medievais com a cultura popular eivada de superstições e paganismo. "A fome, as pestes e o lento desmonte do sistema feudal cooperaram para que o diabo assumisse suas características inumanas a partir do século 11", diz Abumanssur. "A assimilação da cultura grega e seus deuses por parte do cristianismo trouxe contribuições como os chifres, os pés de bode e o rabo, características do deus Pã. A entrada do cristianismo nos países celtas, ao norte da Europa, contribuiu para reforçar essa imagem próxima do deus Cernu, ou Cernunno."
Conforme lembra o teólogo Volney Berkenbrock, professor de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, a versão caricata do diabo como um serzinho vermelho e chifrudo é consequência daquilo que o cristianismo procurava combater, no início, ou seja, as crenças greco-romanas.
"Nos embates de culturas - e, no caso específico, de religiões - os símbolos da religião dos outros serão postos como algo extremamente ruim e malévolo. Dessa forma, Satanás ganhou adereços de quem se estava combatendo", explica.
"Concretamente: o cristianismo, ao combater a religião grega - e também a romana - coloca chifres no diabo por conta do Deus grego Pã, uma figura representada como meio homem, meio carneiro chifrudo, que seduzia as jovens. Da mesma forma, usa o tridente, para combater Posseidon, o Deus grego dos mares - Netuno para os romanos -, pois o tridente era o símbolo dessa divindade."
Essa dicotomia, aponta o pesquisador, ocorre até hoje. "Um exemplo típico é como algumas igrejas cristãs identificam a figura de Exu, advinda da religião africana dos iorubanos, como o demônio", pontua.
Cultura
As representações culturais da figura de Satanás são recorrentes desde a Idade Média. Atualmente, essa carga imagética ganha referência da cultura pop - dos filmes às histórias em quadrinhos.
"No cinema o filme "O Exorcista", de 1974, foi um divisor de águas. Ele marcou a filmografia subsequente", acredita Abumanssur. "Há uma imagem feita entre 1471 e 1475, de autor conversando com São Teófilo de Adana. O diabo mostra um livro a São Teófilo e, talvez, seja a primeira pintura a simbolizar um pacto com o diabo. Isso é interessante, pois marca o valor da assinatura como forma de validar acordos. Os acordos financeiros se valeram dessa mudança cultural."
De origem hebraica, a palavra satanás significa "acusador" ou "adversário". Suas ocorrências mais antigas, portanto, não aludem a uma figura oposta a Deus, muito menos de algo que personifique o mal. "Ele era simplesmente o acusador, quase o que hoje se poderia chamar de promotor de Justiça", compara o teólogo Berkenbrock.
"A ideia de satanás como personificação do mal entrou para o judaísmo provavelmente por meio de influência babilônica, mais especificamente da religião de Zaratustra (o Mazdeísmo), que conhece uma figura oposta ao Deus (Ahura Mazda), figura esta chamada de Ahriman. Assim, o judaísmo passou - já no tempo de Jesus - a assumir o imaginário de uma figura contraente de Deus, usando para isto a palavra satanás."
As palavras diabo e demônio são legado da influência grega sobre o cristianismo. Demônio (ou daimon) significa força, impulso - e passou a ser identificada como força negativa. Diabo (diabolos) é divisor, aquele que causa divisão.
Em seu livro "O Cristo Pantocrator", a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do Museu de Arte Sacra de São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião, ressalta que o contexto da Idade Média foi favorável a criação da imagem de satanás.
"A vida humana estava sempre sob ameaça. Os fardos cotidianos eram pesados. A morte era um guia constante e os moribundos se questionavam para saber se poderiam esperar a vida eterna após a morte ou as torturas do inferno", afirma.
"O medo do além era tão presente e tão físico que era acompanhado de um temor religioso profundo. Ninguém poderia escapar do julgamento final, mas era tido como certo trabalhar durante a vida para a salvação."
"Foi assim", prossegue a pesquisadora, "que o tema do Juízo Final se tornou o predileto dos tímpanos - arcos situados acima da entrada da igreja - , constituindo-os num grande vetor monumental, uma grande invenção da arte românica."
Era Deus colocado em paralelo ao diabo. A ameaça constante do mal se apossando das pessoas. "Os sermões dos padres visavam amedrontar, desgrenhando a condição humana sob cores vivas, às vezes em excesso, e representando artisticamente o destino sobre as paredes pintadas", explica Tommaso.
"Juízo Final", não à toa, é considerado o principal afresco da carreira do renascentista Michelangelo. Entre 1535 e 1541, o artista toscano pintou na Capela Sistina, no Vaticano, a representação artística do julgamento de Deus, narrado no livro bíblico do Apocalipse.
Outras representações
No livro "História da Feiura", Umberto Eco lembra de outras representações da figura do mal. "Existiam em diversas culturas vários tipos de demônio", escreveu. No Egito antigo, havia o monstro Ammut, híbrido de crocodilo, leopardo e hipopótamo. A cultura mesopotâmica tinha referências a seres de feições bestiais.
"Quanto à cultura hebraica, que influencia diretamente a cristã, é o diabo, assumindo a forma de serpente, quem tenta Eva, no Gênesis", afirmou Eco. "Sempre na Bíblia, encontramos menções a Lilith, monstro feminino de origem babilônica que, na tradição hebraica, transforma-se em demônio feminino com rosto de mulher, longos cabelos e asas."
Deusa adorada na Babilônia e na Mesopotâmia, Lilith era associada a ventos que, segundo se acreditava à época, traziam enfermidades e morte. Na tradição judaica antiga, ela aparece como um demônio noturno. Para os islâmicos, Lilith foi a primeira mulher do personagem bíblico Adão - e acabou acusada de ter sido ela a serpente que fez com que Eva comesse o fruto proibido.

domingo, 10 de junho de 2018

A saga de Maria Madalena

Cartaz do filme

Há alguns meses atrás fui assistir ao filme “Maria Madalena”.[1] Eu tinha expectativas de que a película fosse trazer alguma coisa das teorias e elementos das pesquisas sobre a figura dessa mulher tão importante na história do cristianismo nascente. Confesso que o filme não conseguiu preencher bem essas expectativas, porém ele ainda é um bom filme com muitos elementos interessantes e provocações por parte do olhar do diretor, que nos apresentam uma visão diferente sobre Maria Madalena.
Nessa postagem não pretendo dar spoliers do filme, mas comentarei algumas coisas que vi nele. Desejo compartilhar aqui algumas das minhas impressões fazendo ligação com algumas questões teológicas que considero interessantes.
A figura de Maria Madalena (ou de Magdala) despertou curiosidades e interesses em vários momentos da história. Ela é citada nos Evangelhos, em textos apócrifos, textos gnósticos e existem lendas em torno de sua pessoa. Por causa disso, muitas “teorias da conspiração” surgiram, como é o caso do que Down Brown utiliza como base para seu romance de suspense policial “O Código Da Vinci”.
Uma informação erroneamente difundida entre os cristãos é que Maria Madalena teria sido uma prostituta que foi perdoada por Jesus e, depois, se tornou sua seguidora. Entretanto, a classificação dela como prostituta foi um erro de interpretação que acabou por se tornar senso comum. Quando isso teria ocorrido não sei dizer com precisão, pois isso vem desde o início da idade média.[2]
O filme resgata o que a exegese moderna tem afirmado com tranquilidade: Maria Madalena foi uma seguidora de Jesus de Nazaré, que o acompanhou até sua morte na cruz e que se tornou a primeira testemunha de sua ressurreição. Sobre a sua vida antes do seguimento de Jesus, os evangelhos apenas dizem que Jesus a teria libertado de “sete demônios”.[3]
Contudo, o filme também traz adaptações que são próprias de uma narrativa cinematográfica para falar de como Jesus e Madalena se encontraram e de como ela se tornou sua discípula.
Vários elementos me chamaram a atenção na narrativa do filme.
Jesus conversa com Judas
Cena do filme Maria Madalena
A apresentação de Jesus como um discípulo de João Batista, conhecido pelas pessoas como um “curador”, uma espécie de mestre andarilho que ensinava e fazia curas, que batizava e chamava as pessoas à conversão, e que anunciava a vinda do Reino de Deus. Essa caracterização, a meu ver, não é o que nossa piedade religiosa costumeiramente pensa sobre Jesus, mas é bem verossímil. Basta estudar melhor o ambiente da Palestina do século I para ver que Jesus era visto como “mais um” pregador entre outros que havia em seu tempo, alimentando a esperança do povo de que Deus mudaria sua situação de opressão sob o domínio do Império Romano.
Uma diferença entre Jesus e alguns dos movimentos que existiam em seu tempo é que ele não buscava uma revolução armada, mas acreditava e ensinava que Deus poderia mudar a situação se as pessoas mudassem (conversão), pelo amor, pelo serviço, pela busca da justiça conforme o “coração” de Deus.
Os discípulos também me pareceram bem verossímeis: não entendiam bem o que Jesus ensinava, tinham dúvidas de como as coisas iriam acontecer, acreditavam num Reino fruto de um levante do povo contra os Romanos, acreditavam que Jesus seria um profeta ou o próprio messias prometido a Israel.
Agora, sobre a figura de Maria Madalena, temos uma mistura de elementos do Novo Testamento com elementos da literatura apócrifa e a interpretação do diretor. Como não temos muitas informações sobre essa personagem no texto bíblico, era de se esperar que as lacunas fossem preenchidas com outras fontes.
Batismo de Maria Madalena
Cena do filme Maria Madalena
Claramente há a presença de uma teologia feminista,[4] que é um ramo da teologia que procura resgatar a figura feminina dentro da tradição bíblica. Essa teologia faz a critica da leitura patriarcal do texto bíblico e procura identificar os elementos da Revelação que manifestam o projeto de Deus em relação às mulheres. Achei isso muito positivo, pois esse ramo da pesquisa teológica defende a tese de que Maria Madalena teria tido mais importância no cristianismo nascente do que é possível perceber nos Evangelhos. Essa pesquisa chama a atenção para o fato de alguns Evangelhos colocar Madalena como primeira testemunha da ressurreição de Jesus, pois isso vai contra a tendência da cultura patriarcal judaica que não considerava a mulher como uma pessoa autônoma, sendo ela totalmente dependente do homem. Desse modo, poderíamos supor que ela realmente teria um papel importante no cristianismo primitivo.
Ao procurar mostrar a proximidade entre Madalena e Jesus, o filme evitou acertadamente entrar nas teorias de que eles seriam um casal, de que ela teria sido companheira de Jesus, pois isso só criaria polêmica tirando a atenção dela e colocando a atenção na pessoa de Jesus. Se o objetivo é falar de Madalena, de sua história, essa perspectiva não ajudaria em nada, inclusive porque é uma teoria sem muita sustentação plausível. Porém, o filme segue alguns textos apócrifos para desenvolver sua figura como uma discípula fiel e próxima de Jesus.
Gostaria de destacar, agora, dois aspectos que não me agradaram no filme.
O primeiro aspecto, talvez consequência do uso de fontes gnósticas, é uma imagem de Jesus e de seu projeto como algo meramente espiritual, que visa atingir as pessoas no seu “coração”, sem preocupação social e política. Madalena acaba sendo apresentada como o modelo do “discípulo que entendeu” a mensagem de Jesus nessa perspectiva espiritualista da vida e da mensagem dele, enquanto os demais discípulos seriam representantes da “errônea visão” política e social do significado de Jesus.
Assim, o filme acaba caindo num maniqueísmo de extremos que não ajudam no que se refere à compreensão da mensagem do Evangelho de Jesus, além de deixar uma perspectiva negativa para a figura de Madalena (isso na perspectiva teológica de modelo de discípulo). Nesse sentido o filme acaba tendo também um tom anacrônico, pois essas perspectivas do modo como aparecem no filme se parecem mais com os problemas interpretativos atuais que enfrentamos na discussão teológica do que com os dilemas próprios da época de Jesus.
O segundo elemento é que o filme se preocupou em enfocar a história de Madalena na sua relação com Jesus como discípula, deixando de lado outros temas interessantes que poderiam ter sido tratados sobre a história dela. O filme não se interessou em aproveitar algumas teorias que afirmam que Maria Madalena teria sido uma líder e uma apóstola ativa após a páscoa de Jesus, ou a lenda que afirma que ela teria ido até o sul da França e lá teria evangelizado e vivido em uma gruta que, hoje, é um santuário dedicado a ela. Confesso que senti falta de alguns desses elementos que poderiam provocar nossa imaginação sobre essa figura singular nos Evangelhos e provocar uma boa discussão sobre o papel da mulher na comunidade cristã primitiva.
Maria Madalena
                Cena do filme Maria Madalena
Depois desse nosso comentário, minha avaliação é que esse é um bom filme. Vale a pena assisti-lo e deixar-se provocar por sua visão sobre Maria Madalena. Em uma sociedade patriarcal do século I, Maria Madalena nos aponta para um elemento profundamente revolucionário presente no cristianismo primitivo: as mulheres como membros ativos da comunidade e também como responsáveis pelo anúncio do Evangelho como missionárias.




[1] Caso haja interesse, deixo aqui a ficha técnica do filme:
·         Título original: Mary Magdalene
·         Nacionalidade: Reino Unido
·         Gêneros: Histórico, Biografia, Drama
·         Ano de produção: 2017
·         Estréia: 22 de março de 2018
·         Direção: Garth Davis
·         Roteiro: Helen Edmundson, Philippa Goslett
·         Produção: Iain Canning, Emile Sherman, Liz Watts
·         Música: Hildur Guðnadóttir, Jóhann Jóhannsson
·         Fotografia: Greig Fraser
·         Editor: Alexandre de Franceschi, Melanie Oliver
·         Direção de arte: Cristina Onori
·         Distribuição: Universal Pictures
[2] O mais provável é que tenha sido São Gregório Magno quem a considerou como uma prostituta ao identificá-la como a "pecadora" de Lucas 7,36 – 8,3. A interpretação se tornou senso comum sendo ainda difundida hoje em dia. Entretanto, a exegese moderna já comprovou que essa interpretação está errada.
[3] cf. Mc 16,9; Lc 8,2.
[4] Indico uma breve explicação sobre o tema em LIBÂNIO, J. B.; MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques e tarefas. 5ª ed. São Paulo: Loyola, p. 255-258.

domingo, 13 de maio de 2018

A pluralidade do cristianismo e a intolerância entre os cristãos

Christian World Communions

Uma questão que sempre volta no meio religioso cristão é a intolerância. Existem pessoas que, por ingenuidade ou por desconhecimento da própria história do cristianismo ou, infelizmente, por um fundamentalismo doentio, acabam por acreditar cegamente que sua tradição cristã é a única correta e verdadeira e que quem não se encaixa no seu “modelo” de cristianismo está no erro, no pecado ou condenado ao inferno.
Nesta semana em que realizamos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, gostaria de recorda com você, cara leitora e caro leitor, um pouco da nossa história enquanto comunidade cristã no mundo. Acredito que esse breve olhar pode trazer outra perspectiva sobre nós mesmos enquanto Igrejas e Comunidades Eclesiais que se auto-identificam como seguidoras de Jesus Cristo.[1]
O cristianismo nasceu como um grupo, uma “seita”,[2] dentro do judaísmo. Os discípulos de Jesus, após a experiência de sua páscoa, pregavam que esse Jesus seria o messias enviado por Deus para realizar a salvação de todos os que nele cressem e de levar o judaísmo a alcançar o cumprimento das promessas que Deus lhe havia feito por meio dos profetas.[3]
Esse novo grupo dentro do judaísmo irá passar por um processo traumático de ruptura com o judaísmo a partir da segunda metade do século I depois de Cristo (d.C.). Dentre as diversas razões dessa ruptura, destaco a acolhida de não-judeus no grupo dos seguidores de Jesus e o contexto do próprio judaísmo depois da queda de Jerusalém depois do ano 70 d.C..
O cristianismo nasceu, então, de um cisma com o judaísmo. Já nascemos em meio a uma “briga” com nossa “religião-mãe”. Assim, passamos a ter Cristianismo de um lado e Judaísmo do outro.
Em seguida, recordo que dentro das comunidades cristãs sempre existiram tensões e momentos de ruptura nesses primeiros séculos. Uma primeira tensão foi entre aqueles que achavam que para ser da comunidade cristã as pessoas tinham que adotar os costumes judaicos (circuncisão, rituais de purificação, seguir a Lei de Moisés etc) e aqueles que diziam que isso não era necessário, bastando crer em Jesus como messias e seguir o que ele ensinou.
Outras tendências foram surgindo e gerando tensões, tais como: se Jesus era divino ou não; se ele morreu de verdade ou só aparentemente, já que Deus não pode morrer; como ele seria Filho de Deus etc. Essas e outras questões geraram tantos conflitos que a Igreja cristã, nos primeiros 8 (oito) séculos, realizou grandes Concílios tentando encontrar soluções para essas e outras questões de forma que se guardasse o fundamental da fé e a unidade do cristianismo.
Entre esses vários contextos, recordo o caso do Arianismo. Essa corrente de pensamento considerada herética por vários Concílios permaneceu dividindo internamente a Igreja por aproximadamente 3 séculos. Seu pensamento não tinha como objetivo destruir o cristianismo, mas era uma tentativa de explicar como Jesus poderia ser homem e ser Deus ao mesmo tempo. A maioria dos líderes do cristianismo rejeitou a teoria de Ário, por isso ela foi considerada herética, contudo ela permaneceu por muito tempo sendo fonte de conflitos internos.
Por volta do ano de 1054, ocorreu o “Cisma Ocidente-Oriente” ou o “Grande Cisma”. A Igreja Católica (assim chamada não como denominação, mas como compreensão de que ela é universal - para todo o mundo) se dividiu entre o Oriente e o Ocidente. As causas giraram em torno de questões teológicas sobre a natureza do Espírito Santo e questões sobre a autoridade entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente cristão. Assim, o mundo cristão ficou dividido entre a Igreja Católica Apostólica Romana, no Ocidente,  e a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, no Oriente.
No século XV, com o monge agostiniano Martinho Lutero, inicia-se o movimento  que será chamado de Reforma Protestante. O monge Lutero apresenta suas 95 teses que questionam posturas e formas de interpretação da fé cristã por parte das lideranças da Igreja Católica no Ocidente. Conflitos, perseguições, interesses políticos levaram ao “Cisma do Ocidente”, dando origem a Igreja Católica Apostólica Romana (o termo “Católica” aqui entendida como denominação específica dentro do universo das Igrejas cristãs) e as Igrejas e Comunidades Eclesiais da Reforma.[4]
Em seguida, dentro do próprio movimento da reforma, diferentes perspectivas geraram diferentes Igrejas, fragmentando em diversas denominações o cristianismo da Reforma.
Na Igreja Católica, apesar de não ter ocorrido fragmentações externas tão intensamento como a do tipo ocorrido no mundo protestante, internamente sempre existiram tendências, interpretações e tensões teológicas que exigiram e exigem constante necessidade de revisão e diálogo para evitar maiores divisões. Mesmo assim, algumas divisões menores já ocorreram no século passado. Cito aqui dois casos: a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, fundada pelo bispo francês Lefebvre, que não aceitou as decisões do Concílio Vaticano II (1962-1965); a Igreja Católica Apostólica Brasileira, que recusa o dogma da infalibilidade do Papa e que tem uma interpretação menos rígida das orientações morais cristãs, nascida com cisma do bispo Carlos Duarte Costa que vivia na região do Estado de São Paulo, em 1945.
Essa breve exposição nos ajuda a perceber que nossa história, como história do cristianismo, nunca foi tranquila nem uniforme. Sempre existiram tensões e conflitos que em alguns momentos conseguimos superar, mas que em outros acabamos por nos dividir.
A consciência dessa história comum a todos os cristãos provocou vários cristãos e cristãs, e em suas Igrejas, o desejo por um novo caminho que pudesse nos ajudar a resgatar a comunhão que os evangelhos nos apresentam como o grande desejo de Jesus.[5]
Nascido entre as Igrejas da Reforma em meados do século XX, o Movimento Ecumênico se expandiu e tem sido um sinal de esperança na busca da unidade entre as diversas denominações cristãs. A segunda metade do século XX foi profundamente marcada pelo esforço de líderes das diversas Igrejas e Comunidades Eclesiais em cultivar o caminho do diálogo ecumênico como meio para vivermos uma nova comunhão entre as seguidoras e os seguidores de Jesus.
 Entretanto, tenho sentido nesse início do século XXI uma tendência crescente de uma perspectiva fundamentalista, fechada ao diálogo e ávida por um cristianismo normativo que coloque todas as pessoas em uma espécie de fôrma (seja ela uma interpretação fundamentalista da Bíblia ou a palavra de uma autoridade da sua Igreja), que apresente com toda clareza quais são todas as regras para se conseguir ser um bom cristão, que tire da consciência pessoal a responsabilidade por suas escolhas, pois se deseja pensar e  agir em conformidade com o que “alguém” determina (seja a Bíblia ou a autoridade religiosa), transferindo para esse “alguém” toda a responsabilidade das consequências de suas decisões e ações.
As pessoas que têm apresentado essa postura de fechamento em suas Igrejas parecem não entender que não há como nos protegermos dos desafios que a existência de outras Igrejas cristãs, que honestamente professam sua fé no mesmo Jesus Cristo e que lêem e interpretam a mesma Bíblia, nos apresentam como seguidores e seguidoras de Jesus. Basta olhar nossa história comum como cristãos para entender que a busca da unidade sempre foi um desafio e um sonho desejado, mas nunca plenamente realizado.
É obvio que o caminho não é fácil e que existem diferenças entre nossas Igrejas que são difíceis (no presente momento) de serem superadas. Porém isso não nos impede de nos olharmos com respeito e esperança, com amor fraterno e desejo de construir pontes entre nós.
Atitudes de fechamento manifestam nosso medo diante daquilo que não entendemos ou conhecemos. Elas reforçam o que há de pior em nós: intolerância, falta de misericórdia, legalismos, violência em nome de Deus, exclusão e condenação das pessoas que não pensam como “nós”.
Vamos construir pontes, vamos aprender a ouvir o outro como um irmão (não como um adversário)! Vamos dialogar com respeito e verdade no coração e nas palavras! O pluralismo entre os cristãos não precisa ser necessariamente um mal, ele pode ser uma oportunidade para nos retirar do nosso “ponto de conforto” e nos ajudar a crescer na fé que professamos juntos.
Temos um longo caminho a percorrer rumo à comunhão fraterna entre nós. Eu prefiro percorrê-lo de mãos dadas do que entre cotoveladas.




[1] Não vamos apresentar um estudo exaustivo. Facilmente se encontra bibliografia especializada que pode servir para aprofundar o estudo sobre a história do cristianismo. Aqui nos basta apresentar os acontecimentos de forma breve para informar e ajudar a entender nossa reflexão.
[2] Uso o termo “seita” no seu sentido básico, ou seja, um grupo separado dentro de outro grupo maior.
[3] cf. At 2,22-24.29-36; 3,15;  4,9-12; 5,9-32; 10,37-43; 13,26-31; I Cor 15,3-7.
[4] Uso a expressão genérica “Igrejas e Comunidades Eclesiais da Reforma” porque são muitas as denominações que surgiram nessa primeira fase do processo: Lutera, Calvinista, Presbiterianos, Batistas etc. Dessa forma, sintetizo nessa expressão a diversidade de denominações que foram surgindo com a Reforma.
[5] Jo 17,20-21.

domingo, 29 de abril de 2018

A tradição da fé cristã e a questão dos pobres (Parte I)

O pobre Lázaro

O pobre tornou-se tema central na reflexão teológica pós-conciliar na América Latina a partir de Medelín. A situação de sofrimento e de opressão sob regimes autoritários, na segunda metade do século XX em nosso continente, levou grande número de teólogos e teólogas a procurar respostas, a partir da Revelação, para esta realidade.
Entretanto, ainda hoje, mesmo diante da atual situação de pobreza e exclusão em que vivem milhares de brasileiros, muitas pessoas acreditam que a religião não deveria se preocupar com isso ou que o papel da religião deveria restringir-se a atividades assistenciais e a dar apenas conforto espiritual para as pessoas.
É importante destacar que, seguindo a inspiração do Concílio Vaticano II de “retorno as fontes”, uma riqueza inestimável dentro da Sagrada Escritura e da Tradição da Igreja foi reavivada no que diz respeito à compreensão a partir da fé sobre o DIREITO DO POBRE. É seguindo esse caminho da Escritura e da Tradição que iremos apresentar essa temática. Vamos lá![1]

Ø  Antigo Testamento
Começando pelas escrituras encontramos uma profunda consciência solidária diante do pobre e de suas necessidades já no Antigo Testamento: Respeito e bem ao próximo (Ex 20,15-17); justiça no contrato de trabalho e no comércio (Dt 24,14-15); direito de justiça a todos, inclusive o estrangeiro (Dt 24,17-18).
Os profetas denunciam que o culto e a vida religiosa sem justiça aos pobres são vazios, inúteis, e Deus se aborrece deles: Am 5,21-24; Is 1,11-17; 58,3-11; Mq 6,6-8; Jr 7,4-7.
É evidente o condicionamento entre a aliança divina e o respeito pelo direito do pobre dentro da tradição do A.T.

Ø  Novo Testamento
Aqui encontramos Jesus que proclama o direito do pobre, mas também proclama o amor que realiza este direito, indo muito além das exigências da justiça. Por exemplo: usar os bens transitórios para um dia alcançar os bens eternos (Lc 16,10-12); não se pode servir a dois senhores (Lc 16,13).
Os pobres são cidadãos do Reino com mais facilidade que os ricos, pois estes são estranhos ao Reino, pois a riqueza cega é uma verdadeira forma de idolatria. A saída para os ricos é partilhar “as riquezas injustas” (Lc 16,9.11): injustas porque foram mal adquiridas (Lc 19,1-10), ou porque excedem as verdadeiras necessidades de seus detentores.
O N.T. nos mostra que Cristo é pobre, e é o pobre quem nos julgará (Mt 25,31-46; Tg 5,1.4).
O pobre numa visão positiva: tanto o A.T. como o N.T. apresentam o “ser pobre” também como uma atitude espiritual, sendo aquele que se contenta com o necessário para viver, que é humilde, que não confia nas riquezas nem exige direitos diante de Deus. Por isso são os prediletos de Deus, como Maria anuncia no Magnificat (Lc 1,52-53). Deus escolheu os pobres (Tg 2,5), tanto é que para ser discípulo de Jesus a pobreza é uma condição apresentada nos evangelhos (Mt 19,16-30; Mc 10,17-31; Lc 18,18-30). Temos, então, duas perspectivas: os pobres que o são porque deixaram tudo para dar um testemunho ao mundo dentro do discipulado de Jesus; e temos os pobres que o são porque partilham de seus bens mantendo apenas o necessário para viver (Lc 6,20.24).

Ø  Patrística
O pensamento dos padres é audacioso neste tema do direito do pobre. Eles entendem que a riqueza pertence aos pobres e aquele que a possui é apenas seu administrador.
-          “Não deverás repelir o indigente. Terás tudo em comum com o teu irmão e não dirás que um bem é teu, porque, se se partilham os bens imortais, quanto mais devem ser partilhados os bens passageiros” (Doutrina dos Doze Apóstolos, sec. II).
-          “Aquele que despoja um homem de sua roupa é ladrão. O que não veste a nudez do indigente, quando pode fazê-lo, merecerá outro nome? O pão que guardas em tua despensa pertence ao faminto, como pertence ao nu o agasalho que escondes em teus armários. O sapato que apodrece em tuas gavetas pertence ao descalço, ao miserável a prata que ocultas”. (S. Basílio).
-          “Não é teu o bem que distribuis ao pobre. Devolves a ele apenas a parte do que lhe pertence, porque usurpas para ti sozinho aquilo que foi dado a todos, para o uso de todos. A terra pertence a todos. Não apenas aos ricos”.(S. Ambrósio).
Os padres não negam o direito à propriedade, mas revelam-lhe seu sentido. O mundo foi criado por Deus como um dom para todos, porém o pecado distorceu esta relação e, por isso, o uso comum dos bens da criação tornou-se impossível devido o egoísmo no coração humano. Por isso, o que era de direito natural (a apropriação social) decaiu para a apropriação pessoal (derrogação da lei natural devido o pecado).
-          “A terra foi dada em comum a todos os homens; ninguém considere próprio aquilo que, além do necessário, foi retirado do acervo comum por meio da violência” (S. Basílio).
-          “O uso comum de tudo que há neste mundo destinava-se a todos, porém, devido à iniquidade, um disse que isto era seu e outro disse que aquilo era dele e assim fez-se a divisão entre os mortais” (S. Clemente).
-          “A natureza produziu seus bens em profusão, oferecendo-os em comum a todos. Deus ordenou que tudo fosse produzido, gerado, de maneira a servir de alimento a todos e a terra fosse como propriedade comum de todos. O bem privado é assim fruto de usurpação” (S. Ambrósio).
-          “Se desses do que é teu, seria liberalidade; como dás do que é dele (Jesus presente no pobre), é uma simples restituição” (S. Agostinho).
Todos estes textos querem dizer “[...] que a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem o direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo. Quando a outros falta o necessário” (Populorum Progressio, n. 23).
Vamos ficando por aqui! Na próxima postagem continuaremos expondo brevemente como essa temática apareceu no período escolástico e contemporâneo.




[1] O que apresento a seguir é uma síntese feita a partir da obra: BIGO, Pierre; ÁVIA, Fernando Bastos. Fé cristã e o compromisso social: elementos para uma reflexão sobre a América Latina à luz da Doutrina Social da Igreja. 2a ed., São Paulo: Paulinas, pp. 159-227, 1983.

Postagens anteriores

DESTAQUE DO MÊS

“Teologia Oficial” x Teologia da Libertação: um embate hermenêutico!

Concílio Ecumênico Vaticano II Existe uma discussão no meio teológico movida por questões de compreensão e interpretação da mensagem d...