sábado, 7 de abril de 2012

A ressurreição como insurreição


(Por Leonardo Boff) 07/04/2012


Há uma questão da existência social do ser humano que atormenta o espírito e para a qual a ressurreição do Crucificado pode trazer um raio de luz: que sentido tem a morte violenta dos que tombaram pela causa da justiça e da liberdade? Que futuro têm aqueles proletários, camponeses, índios, sequestrados, torturados, assassinados pelos órgãos de segurança dos regimes despóticos e totalitários, como os nossos da América Latina, em fim, os anônimos que historicamente foram trucidados por reivindicarem seus direitos e a liberdade para si e para toda uma sociedade?
Geralmente a história é contada pelos que triunfaram e na perspectiva de seus interesses. A nossa, a brasileira, foi escrita pela mão branca. Só com o historiador mulato Capistrano de Abreu apareceu a mão negra e mulata. O sofrimento dos vencidos quem o honrará? Seus gritos caninos que sobem ao céus quem os escutará?
A ressurreição de Jesus pode nos oferecer alguma resposta. Pois, quem ressuscitou foi um destes derrotados e crucificados, Jesus, feito servo sofredor e condenado à vergonha da crucificação.
Quem ressuscitou não foi um César no auge de sua glória, nem um general no apogeu de seu poderio militar, nem um sábio na culminância de sua fama, nem um sumo-sacerdote com perfume de santidade. Quem ressuscitou foi um Crucificado, executado fora dos muros da cidade, como lembra a Carta aos Hebreus, quer dizer, na maior exclusão e infâmia social.
Mas foi ele que herdou as primícias da vida nova. Pois a ressurreição não é a reanimação de um cadáver como aquele de Lázaro. A ressurreição é a floração plena de todas as virtualidades latentes dentro de cada ser humano. Ela revela o sentido terminal da vida: a irradiação suprema do “homo absconditus” (o humano escondido) que agora se faz o “homo revelatus”(o humano revelado).
A ressurreição de Jesus mostrou que Deus tomou o partido dos vencidos. O algoz não triunfa sobre sua vítima. Deus ressuscitou a vítima e com isso não defraudou nossa sede por um mundo finalmente justo e fraterno que coloca a vida no centro e não o lucro e os interesses dos poderosos. Só ressuscitando os vencidos, fazemos justiça a eles e lhes devolvemos a vida roubada, vida agora transfigurada. Sem essa reconciliação com o passado perverso, a história permaneceria um enigma e até um absurdo.
Os injustamente executados voltarão, com a bandeira branca da vida. O verdadeiro sentido da ressurreição se mostra como insurreição contra as injustiças deste mundo que condena o justo e dá razão ao criminoso.
Agora pode começar uma nova história, com um horizonte aberto para um futuro promissor para a vida, para a sociedade e para a Terra. Dizem historiadores que o mundo antigo não conhecia o sorriso. Mostrava a gargalhada do deus Baco ou o riso maldoso do deus Pan. O sorriso, comentam, foi introduzido pelo Cristianismo por causa da alegria da Ressurreição. Só pode sorrir verdadeiramente quando se exorcizou o medo e se sabe que a grande palavra final é vida e não morte. O sorriso, portanto, é filho da Ressurreição que celebra a vitória da vida sobre a morte, testemunha o encantamento sobre a frustração e proclama o amor incondicional sobre a indiferença e o ódio.
Este fato é religioso é somente acessível mediante a ruptura da fé. Admitindo que a ressurreição realmente aconteceu intra-historicamente, então seu significado transcende o campo religioso. Ganha uma dimensão existencial, social e cósmica. Na expressão de Teilhard de Chardin, a ressurreição configura um “tremendous” de dimensões evolucionárias, pois representa uma revolução dentro da evolução.
Se o Cristianismo tem algo singular a testemunhar, então é isso: a ressurreição como uma antecipação do fim bom do universo e a irrupção dentro da história ainda em curso do “novissimus Adam” como São Paulo chama a Cristo: o “Adão novíssimo”. Portanto, não é a saudade de um passado mas a celebração de um presente.
Depois disso, cabe apenas se alegrar, festejar, ir pelos campos para abençoar os solos e as semeaduras como o faz ainda hoje Igreja Ortodoxa na manhã de Páscoa.Entoemos, pois, o Aleluia da vida nova que se manifestou dentro do velho mundo.
Leonardo Boff é autor A nossa ressurreição na morte (Vozes).


3 comentários:

  1. Uma parcela da Igreja Socialista no Brasil , América Latina e países do Terceiro mundo fizeram a Opção pelos Pobres – Estes pobres porem, fizeram a opção pelas Seitas e Protestantismo – Por que ? Quem foi mais INTEGRAL no processo de Evangelização ?


    Todo mundo "opta" e se pensa que, havendo "opção", está tudo legitimado.



    Até se opta pelo pecado, na sua forma mais relaxada que é a libertinagem, já vimos este filme e sabemos para onde ele nos conduz.




    Optar significa escolher uma alternativa, excluindo outra. Nem toda opção é legítima: Pois optar pelo pecado, abandonando a virtude, é ilegítimo.


    Deus pune eternamente no inferno aqueles que "optaram" pelo mal de forma deliberada e plenamente consciente.


    Também não é licito optar pela mentira, ou pela heresia.

    Está profundamente errado dizer que "Cristo fez opção de caráter exclusivo pelos pobres", pois isto significaria que Ele excluiu os ricos de seu amor e plano de salvação.

    Essa é uma tese da Teologia da Libertação que considera a riqueza um mal em si, o que vai contra a Escritura, a Teologia e o bom senso.

    Cristo foi amigo de ricos como Lázaro de Betânia, Nicodemos, Zaqueu, de Mateus coletor de impostos que o chamou a ser seu dicípulo e de muitos doutores da lei.

    Ora Cristo em sua primeira epifania ao mundo, chamou ao presépio de Belém os pastores pobres, mas também os ricos reis que lhe levaram ouro, incenso e mirra e o adoraram.

    Cristo não excluiu ninguém, assim como a Igreja que fez uma OPÇÃO PELO POBRE, porém não exclusiva nem excludente, poisCristo veio redimir o gênero humano, e não simplesmente determinada classe social, e os ricos fazem parte do gênero humano.

    Na Sagrada Escritura, lemos que Deus abençoa o rico e o pobre, pois está dito: "O rico e o pobre se encontraram. Deus criou a ambos" (Prov. 22, 2).

    Abraão era muito rico, e Deus o amou, com isto não queremos fazer defesa ou apologia da riqueza, principalmente desta que nos rodeia de forma escandalosa e que merece sim nosso repúdio e denuncia.

    Portanto Deus não opta, isto é, não opta exclusivamente pelo pobre excluindo os demais. Deus, se prefere alguém, é pela virtude.

    Deus ama os santos e exclui os pecadores que não querem se converter, e que repelem obstinadamente a sua graça misericordiosa, imerecida e gratuita.

    Quem lançou esse slogan que "Deus fez opção pelo pobres" foi a Teologia da Libertação cuja doutrina é marxismo fantasiado de Teologia.

    Na realidade, os teólogos da Libertação não fazem "opção pelo pobres": eles fazem opção pelo marxismo e pelo Partido Comunista, ou por movimentos e partidos marxistas.

    Continua...

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  2. Cristo veio para pagar o pecado original do homem. É claro que Ele, encarnando-se, assumindo a natureza humana e unindo-a à natureza divina, na sua única pessoa de Filho de Deus, Ele visou salvar os homens.

    Não poderia "optar" Ele pelos animais ou pelas samambaias. Realmente Cristo não faz "opção"pela condição social ou econômica da pessoa, mas pela humanidade decaída pelo pecado que inclui pobres e ricos.

    A Igreja Católica, fez acertadamente a Opção "preferencial" pelo pobre, porém, indo contra as diretrizes do Magistério e com todas as suas consequências negativas que hoje vemos,uma parcela da Igreja Católica Progressista principalmente no Brasil, América Latina e nos países do terceiro mundo, fizeram uma opção ideológica e instrumentalizante e "exclusiva" pelo pobre, e o pobre que não é burro, fez a sua opção preferencial pelas seitas e pelo protestantismo.

    É de se perguntar e refletirmos:

    1)- Por que ? Onde foi que erramos ?

    2)- Quando e onde não oferecemos o evangelho integral ? mas meramente social, pois o homem não é meramente um ser social, mas também com suas crises existenciais, que clamam por respostas convincentes.

    3)- Por que pessoas como a ex-presidenciável Marina Silva e ex-militante da Teologia da Libertação Católica, abandona esta mesma parcela da igreja e vai buscar e encontrar as respostas para as suas questões existenciais não nesta Igreja socialista mas no protestantismo existencialista ?

    4)- Não se pode negar que quem mais lutou junto aos ACAMPAMENTOS DOS SEM TERRA foi a CPT e a própria TL e porque hoje ao retornarmos a estes locais, 90% se tornaram protestantes ?

    5)- Quem apresentou ou está apresentando o evangelho mais INTEGRAL ? Católicos ou Protestantes ? Por que a proposta Católica não é tão atrativa e engajante quanto a protestante? O que é prioritário no tempo que se chama HOJE? O Social ou o Existencial ?

    6)-Precisamos resgatar com com novos métodos e meiosaquelas três dimensões em que nos fala o teólogo Jose Ignácio Calleja em sua obra: A Moral Samaritana:

    6.1)- Não é perguntar quem é meu próximo, mas resgatar a pergunta de Cristo: Quem se fez mais próximo ? A TL e muitos teólogos da libertação fazem aquele comportamento do Levita, que passa ver o pobre, mas não se faz próximo, prefere ir lutar por causas mais amplas e questionadoras do porque aquele homem está ali ? Então prefere deixa-lo ali e fazer o discurso libertador e denunciante das estruturas .Para a os militantes da TL o próximo e o contexto, serve apenas de pretexto para o discurso libertador.


    O maior exemplo desta postura é a Crítica que Clodovis Boff, irmão de Leonardo Boff, faz a este último, de uma teologia intelectualizada e de escritório que realmente não se faz próximo e nem se envolve, mas que apenas busca entender e dar respostas globais.




    6.2)- Resgatar o perfil Cristológico e autêntico em Cristo da verdadeira liberdade, não uma liberdade alienante , escravizante, insubmissa e de uma moral relaxada pronta a justificar erros, mas a verdadeira liberdade dos filhos de Deus, com aquela parresia dos primeiros Cristãos que conquistaram o mundo.

    6.3)- Por fim resgatar a GRATUIDADE Cristológica de Cristo, pois Ele mesmo existindo em sua forma divina, não considerou como presa a agarrar-se o ser igual a Deus(Fl. 2,6-8). Gratuidade que reconhecendo que de graça recebeu de graça dar, sem esperar nada em troca,mas com aquele comportamento do servo inútil que fez apenas o que lhe era devido, portanto não tem mérito algum.

    A gratuidade é uma atitude esperada por todos no mundo de hoje do “toma lá da cá,”que renova a esperança nos caídos e interpela os privilegiados, pois não existe ninguém tão pobre que nada possa dar, nem tão rico que nada possa receber.


    http://berakash.blogspot.com.br/2012/04/igreja-fez-opcao-preferencial-pelos.html

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    1. Agradeço a visita e a contribuição na reflexão...

      Gostaria de complementar algo:

      Ao afirmar que Deus faz opção pelos pobres não se quer excluir ninguém, mas apresentar um princípio que nos ajuda a entender qual é o projeto de Deus para toda a humanidade.

      O pobre não é simplesmente uma pessoa que nada tem, mas é a imagem daquele que se encontra ferido em sua dignidade humana e, consequentemente, de filho de Deus.

      Poderíamos trocar o termo "pobre" por "injustiçado" ou "pessoa que sofre injustamente" ou "excluído" e ainda estaríamos falando da mesma realidade...

      Abraão era um homem de fé, confiava no seu Deus e o seguiu conforme Sua vontade, mas, apesar de rico, era alguém "amaldiçoado" por não ter filhos e isso gerava, no seu tempo, descriminação e era motivo de vergonha..
      Deus escolhe Abraão para "confundir os sábios deste mundo" como diz São Paulo, pois de onde nada se esperava além de tristeza e desilusão, Deus começou um povo e fez de Abraão o pai de nações.

      Assim como Abraão que era "pobre" dentro do contexto de alguém que tinha tudo, mas não tinha filhos, encontramos na Bíblia inúmeros exemplos dessa opção, que não é excludente, ao contrário, é uma opção pedagógica de Deus e, por isso sempre inclusiva. Temos os outros dois patriarcas: Isaac e Jacó, José do Egito, Moisés, Davi, toda a tradição profética do AT, e no NT temos os leprosos, os endemoninhados, os paralíticos, os cegos, temos as bem-aventuranças que nos revelas o rosto desses pobres, temos os discípulos e sua origem...

      Inúmeros exemplos bíblicos nos apontam para esta perspectiva que nos convida (a todos, ricos e pobres) a reflexão e a conversão. A "opção pelos pobres" é pedagógica e foi escolhida por Deus para nos mostrar o caminho de vida nova para todos (ricos e pobres).

      A opção de Cristo pelos pobres sempre manifestou a gratuidade de Deus por todos, pois aos pobres Ele deu esperança de que não estavam esquecidos nem eram amaldiçoados por sua situação; aos ricos ele chamou a pobreza, "venda tudo e dê aos pobres e terás um tesouro no céu", ou seja, ao desapego, a não fazer do TER o centro de suas vidas. Deste modo o pobre se torna mais do que uma pessoa, se torna uma perspectiva que nos permite avaliar o que realmente é importante nesta vida para fazermos a vontade de Deus.

      Cristo, que em seu amor, se fez pobre para nos enriquecer, se torna nosso principal modelo: para ricos e pobres (concretamente falando).

      O problema está em reduzir esta pedagogia de Deus a apenas questões sociais e políticas (que não devem ser desprezadas, mas não são as únicas) e ter se esquecido da dimensão existencial que também faz parte da totalidade que é o ser humano.

      É claro que toda interpretação unilateral e extremista de qualquer categoria pode gerar problemas, distorções e levar a erros graves em matéria teológica, por isso o debate sempre está aberto e sempre poderemos nos enriquecer uns com os outros na medida que nossa reflexão avança em busca da verdade, como dizia o saudoso beato João Paulo II.

      Deus o abençoe e continuemos neste caminho de reflexão, pois somente na busca sincera e humilde é que seremos capazes de vislumbrar um dia a luz da verdade que é o próprio Cristo.

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