domingo, 21 de janeiro de 2018

O lugar de fala e o discurso moral religioso (Parte IV)

Nesta última postagem dessa série dedicada à questão do lugar de fala e do discurso moral religioso, quero compartilhar com você o que vi e o que entendi diante de várias polêmicas atuais que permearam nossos meios de comunicação e as redes sociais nesses últimos tempos.
Caso você esteja lendo esse texto sem ter visto os anteriores, é possível que algumas ideias possam parecer soltas ou sem fundamentação, entretanto, os elementos que fundamentam alguns pontos tratados aqui se encontram nas partes anteriores dessa reflexão. Por isso, recomento olhar os textos anteriores antes de seguir na leitura deste.
Retomando...
Recordo os vários episódios nos quais membros de grupos variados (feministas, LGBT, radicais críticos da religião cristã, entre outros), realizando manifestações, executaram performances utilizando objetos e símbolos relacionados à fé cristã: quebra pública de imagens católicas, introdução da cruz no ânus em manifestações, utilização da matéria usada para a celebração da missa (as pequenas hóstias) em uma exposição com nomes de partes do corpo escritas nelas, pichações em fachadas de Igrejas cristãs, e assim poderia continuar essa lista. Na internet facilmente se pode encontrar notícias sobre esses episódios e muitos outros.
Ao recordar esses episódios quero recordar também as reações dos grupos cristãos (católicos e evangélicos) que processaram várias dessas pessoas, segundo está na lei, por desrespeito a liberdade religiosa, profanação dos objetos de culto e intolerância religiosa contra as igrejas cristãs. Recordo também que movimentos fecharam exposições em museus, perseguiram artistas por causa de suas posições em relação a manifestações artísticas que traziam temas relacionados com a questão religiosa (especificamente a religião cristã) e fizeram intensas campanhas nas redes sociais como reação a essa agressão a sua fé. Circularam slogans do tipo “Sou católico e defendo a minha fé” para motivar os cristãos católicos a tomarem uma atitude diante desses acontecimentos.
Como consequência disso, percebi uma agressão crescente nos discursos de ambos os lados e, em alguns casos, o incentivo ao uso da violência como forma de ação ou reação.
É preciso olhar o lugar de fala de onde partem essas posições para não se deixar levar por paixões do tipo “fla x flu”, porque isso não é uma disputa esportiva, mas são vidas, histórias e um tipo de sociedade que se está construindo que estão jogo.
Também me senti chocado e ofendido, num primeiro momento, por essas manifestações utilizando símbolos religiosos cristãos. Entretanto, depois do choque inicial, me obriguei a parar e a tentar ouvir o que esses acontecimentos estão me dizendo sobre a minha fé, sobre o meu discurso moral religioso, sobre que imagem da fé cristã estou comunicando às pessoas.
Tentando olhar o lugar de fala de onde o discurso dessas pessoas e de seus grupos parte, percebi que são pessoas (ou grupos socicais) que, muitas vezes, foram vítimas históricas de um tipo de discurso moral cristão que as marginalizou durante séculos, que as consideraram “seres humanos inferiores”, pecadores merecedores dos castigos do inferno: negros e índios com sua cultura e sua fé; homossexuais e sua busca pelo direito de viverem suas vidas; mulheres e sua luta contra uma estrutura social patriarcal e machista. Repito, por séculos esses grupos foram oprimidos, perseguidos e mortos por pessoas que se apresentavam como representantes da “moral cristã”. Há uma história de violência por baixo dessas manifestações que vemos hoje, uma história que talvez nem eles mesmos tenham consciência, mas a sentem e a carregam.
O contexto social atual deu espaço para que essas pessoas se organizassem em grupos socialmente representativos e pudessem se manifestar com liberdade. Eles estão fazendo isso! E qual é a mensagem que eu estou ouvindo da parte deles em algumas dessas formas de manifestação? Agora que esses grupos podem falar, eles estão apresentando suas pautas, reivindicando direitos, denunciando abusos. Em algumas ocasiões, eles estão devolvendo com violência a violência que receberam por séculos da sociedade cristã ocidental.[1] Estão rejeitando essa cultura cristã que permeia a sociedade ocidental porque a experimentaram como nociva, como repressora e castradora do seu direito de viver e de existir como pessoas. Acredito que os casos que citei acima, que chocaram e provocaram reações entre os fiéis cristãos, tem por trás deles esses elementos.
A reação dos grupos e igrejas cristãs, diante desse contexto, tem sido de combater esses movimentos e essas manifestações; de reagir condenando, criticando, gritando que “estamos certos!!” e que eles são simplesmente “pessoas más”. Eu entendo essa reação, pois é uma reação instintiva de preservação, de autodefesa diante de um contexto que se apresenta como ameaçador. Nessa “modernidade líquida”,[2] muitos cristãos sentem-se perdidos e o medo diante das novas realidades que se apresentam pode levar a atitudes de fechamento, de fundamentalismos e de violência (verbal ou física). O que eles buscam são certezas, respostas “certas” para tudo o que está acontecendo, regras claras, receitas para serem seguidas na esperança de que no final se obterá o resultado prometido. Entretanto, questiono: esse lugar de fala é o “melhor lugar” do qual partir para lidar com todas essas situações de mudança, de questionamento e crítica ao discurso moral cristão? Eu acredito que não!
O que eu acredito é que, como cristão, devo buscar um caminho que permita me posicionar com honestidade a partir da Boa Notícia de Jesus. Como cristão eu me sinto na obrigação de me colocar diante dessas pessoas e grupos críticos e/ou contrários ao discurso moral cristão (seja de quem quebrou uma imagem sacra ou profanou uma cruz) e de, humildemente, perguntar: Irmão, diga-me o que eu fiz? Como eu provoquei toda essa violência dentro de você? Onde foi que meu discurso religioso te feriu tão profundamente para provocar essa reação? Quero entender! Quero encontrar um caminho para me redimir! Quero ter a coragem de deixá-los responder as minhas perguntas e de saber ouví-los com sinceridade e respeito, mesmo que seja doloroso! Quero entender para tentar agir como Jesus, meu Mestre e Senhor, agiria, a partir do princípio do amor, pois ele ensinou que é pelo amor que “reconhecerão que sois meus discípulos”.[3]
Acredito que a atitude cristã mais coerente nesse contexto que se apresenta é a de abrir os caminhos do diálogo, de “dar a outra face” para sermos capazes de compreender o que realmente está acontecendo.  Precisamos discernir o que a Revelação está trazendo a nossa consciência nesse momento histórico por meio desses acontecimentos para correspondermos generosamente à vontade de Deus.
Escuta, diálogo, perdão, misericórdia e respeito são palavras que deveriam estar presentes no processo de revisão do discurso moral cristão nesse momento histórico de conflitos e mudanças no qual estamos vivendo. Somente assim se pode desenvolver uma moral cristã que ajude a todos a alcançar os valores fundamentais do amor, do bem, da justiça, da vida em plenitude.




[1] Tenho como pano de fundo para essa argumentação a ideia do chamado “efeito rebote”. Ele é usado normalmente no campo da saúde, como uma reação contrária do corpo a uma ação radical nele aplicada como, por exemplo, a retenção de líquidos no corpo causada por uma radical diminuição no consumo de sódio. Aqui estou partindo dessa ideia: um longo período de privação de direitos, de perseguições, de discriminação, muitas vezes motivados por discursos morais religiosos, sofre agora uma reação que se expressa por meio de sentimentos e falas que ficaram reprimidos por séculos.
[2] Tomo emprestado o termo cunhado pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman.
[3] Cf. Evangelho segundo João, capítulo 13, versículos 34 e 35 (Jo 13,34-35).

domingo, 14 de janeiro de 2018

O lugar de fala e o discurso moral religioso (Parte III)

A religião e a cultura de um povo encontram-se em um processo contínuo no qual uma e outra se alimentam mutuamente perpassando toda a vida de uma sociedade. Mesmo aqueles que não professam uma fé religiosa não escapam de sua influência.
No mundo cristão ocidental fomos marcados pela mensagem cristã vivida e depois transmitida pelos primeiros cristãos que eram judeus e entendiam sua fé como uma forma de renovação do próprio judaísmo. Desse modo, muitos elementos da mensagem cristã inicial estavam carregados de elementos da cultura judaica. Eles enfrentaram crises intensas para descobrir um caminho que conseguisse harmonizar a fé judaica tradicional e a mensagem reformadora dos seguidores do Messias Jesus.
Quando a mensagem cristã alcança o mundo pagão, elementos da cultura judaica que estavam presentes no grupo cristão entram em conflito com a cultura helênica do mundo greco-romano. As questões relativas à pureza dos alimentos, aos rituais de purificação, à circuncisão, entre outras, provocaram violentos conflitos entre os cristãos de origem judaica e os de origem gentílica. Dois discursos foram defendidos,[1] um mais tradicionalista, que queria que os não-judeus recebessem a circuncisão e adotassem os costumes judaicos para poderem fazer parte da comunidade cristã, outro mais liberal (do qual Paulo é seu representante mais conhecido) que reinterpretava a Revelação (ou seja, os textos judaicos que se tornaram o Antigo Testamento cristão) de um novo ponto de vista, partindo de um novo lugar de fala que encontrava-se fora da Palestina e de sua perspectiva étnica e cultural.
Partindo do Oriente, a mensagem cristã se espalha por toda a Europa misturando-se com o seu processo histórico de construção: passando do Império Romano aos povos e tribos vizinhos, depois passando da formação dos vários Reinos à formação dos Estados Nacionais (países). Quando se iniciam as grandes navegações e os europeus se espalham pelas diversas regiões desconhecidas por eles no mundo, inicia-se também a ação missionária para levar o Evangelho a esses novos povos. Entretanto, esse anúncio foi acompanhado da cultura europeia, pois não era estranho para eles pensar que o conjunto de sua cultura e a fé que professavam vivendo essa cultura eram a mesma coisa. Desse modo, por exemplo, vestiram os índios com roupas europeias e batizaram à força os negros africanos[2] no intuito de civilizá-los e torná-los cristãos.[3]
Essa pequena e superficial síntese é suficiente para demonstrar como a mentalidade da cultura ocidental (incluindo, portanto, a brasileira) está marcada profundamente pelo discurso cristão independente de professar ou não a fé cristã. Essa relação entre o discurso cristão e os processos históricos nos quais ele se encontrava ajuda a perceber como o lugar de fala deve ser levado em conta para a análise do discurso moral cristão. Afirmo isso, pois esse discurso não é isento da influência desse processo histórico, como também não está isento no momento atual. O discernimento em vista de uma evolução positiva desse discurso deve considerar o papel do lugar de fala das diversas falas morais.
Percebo que atualmente cresce um discurso moral religioso, mais especificamente moral cristão, colocando-se em defesa do que se acredita ser a “verdadeira moral”. Como cristão, creio que os valores do cristianismo contribuíram e continuam a contribuir para o bem da sociedade ocidental. Entretanto, não posso achar que já possuo o discurso moral “perfeito” com todas as respostas para todas as questões. Em cada época os cristãos precisaram desenvolver sua reflexão moral por causa dos novos contextos que foram se apresentando. Esse processo foi marcado pelos elementos culturais das pessoas em cada tempo, como já demonstramos brevemente acima (e nos textos anteriores).
Hoje, novos contextos se apresentam suscitando questionamentos e necessitando de maiores reflexões: o tema do aborto e do direito das mulheres, a pesquisa com células-tronco embrionárias, a eutanásia ou morte assistida, as novas formas de arranjo familiar, as relações homoafetivas e a homofobia, a intolerância religiosa, o fundamentalismo religioso, o retorno da moral do “olho por olho” diante da sensação de impunidade e da violência presente no nosso cotidiano, entre outros tantos possíveis contextos.
Precisamos pensar a moral cristã nesses novos contextos tendo presente sempre os valores fundamentais do amor, da justiça, do bem, da vida (que são valores que retiramos, como cristãos, da Boa Nova de Jesus Cristo). Porém não achemos que faremos isso isentos das influências de nosso meio social e cultural. Por isso, todo nosso discurso precisa ser amadurecido em constante discernimento, considerando o nosso lugar de fala em diálogo com outros lugares de fala. É preciso evitar a posição de juízes que se colocam acima do bem e do mal, que determinam o que é o certo e o que é o errado só porque é “assim que eu penso”. A princípio tenho a liberdade de pensar como eu quiser, mas achar que o que eu penso é a melhor ou única orientação moral válida e querer adequar tudo e todos a ela é o grande problema. É daqui que têm nascido várias formas de fundamentalismos que usam o discurso religioso para confirmar as próprias ideias ou a própria visão de mundo sem buscar perceber a verdadeira realidade que se apresenta ao seu redor.
Para concluir, quero retomar a figura de Paulo, o apóstolo da Bíblia, a quem me referi no início do texto. Ele modificou seu discurso a partir do momento em que ele se deslocou de seu lugar de fala, ou seja, de judeu fariseu, zeloso cumpridor da lei e perseguidor dos seguidores do Messias Jesus, para judeu-cristão, seguidor do Messias Jesus, defensor do acolhimento dos pagãos na comunidade cristã sem impor-lhes os costumes judaicos.[4]
A meu ver ele ilustra bem o que nós, cristãos de hoje, precisamos fazer: precisamos ter a coragem de nos deslocar do nosso lugar de fala e de aproximarmo-nos do lugar de fala dos outros que pensam diferente de nós. Precisamos fazer a experiência da empatia, da compaixão, para discernirmos nosso próprio discurso moral, permitindo uma evolução positiva, retirando os elementos que são apenas a expressão de nosso lugar de fala e não da Revelação cristã, assim como Paulo procurou fazer em relação aos elementos da cultura judaica presentes no discurso moral cristão dirigido aos pagãos. O processo de discernimento feito por Paulo contribuiu significativamente para que a mensagem cristã não ficasse reduzida a um grupo dentro do judaísmo, mas se tornasse Boa Notícia de Jesus Cristo para cada pessoa que a quisesse acolher pela fé, independente de ser ou não judeu. Ele conseguiu perceber o que a Revelação estava querendo dizer naquele contexto e momento histórico.
Eu estou tentando fazer esse processo de deslocamento de meu lugar de fala para ir ao encontro dos outros lugares. Já faz um bom tempo que estou procurando discernir o que a Revelação está querendo nos fazer entender no atual contexto em que vivemos, e acredito que cada cristão e cristã deve procurar fazer esse mesmo processo. Essa série de textos é uma tentativa minha que compartilho com você, caro leitor e leitora.
Na próxima postagem pretendo concluir essa série de reflexões sobre essa temática específica trazendo alguns casos concretos e apresentando minhas impressões e interpretações a partir do meu lugar de fala em diálogo com outros lugares de fala.



[1] Existiam outros discursos, mas eram como variantes desses dois principais. Por isso, me restringi a colocar esses dois como ponto de referência em nossa reflexão. Sobre os conflitos motivados pelas diferentes posições que foram surgindo na história do cristianismo indico um livro básico para leitura: ROQUE, Frangiotti. História das heresias. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1995.
[2] Indico o filme “A Missão”, de 1986, um drama histórico dirigido por Roland Joffé. Ele se passa no final do século XVIII, apresentando a presença dos jesuítas na região sul do Brasil, sua ação missionária, a luta contra os mercadores de escravos que queriam submeter os índios e as consequências desse conflito.
[3] Claro que em meio a esse processo estava presente também a discussão sobre o “tipo” de humanidade dos índios e dos negros, se eles tinham alma humana ou eram animais. Entre o que se pode encontrar na pesquisa histórica sugiro observar “A controvérsia de Valladolid” na qual os religiosos jesuítas debateram com os conquistadores sobre a legitimidade da escravização dos índios nas novas terras. Ambos os lados utilizam-se de argumentos religiosos: os jesuítas para defender os índios e os conquistadores para justificar sua exploração.
[4] Cf. Carta de Paulo aos Filipenses, capítulo 3, versículos de 5 até 11 (Fl 3,5-11).

domingo, 7 de janeiro de 2018

O lugar de fala e o discurso moral religioso (Parte II)

O problema de certos discursos morais fundamentados em certos princípios religiosos é que eles tendem a sacralizar, a considerar como “divino”, um conjunto de normas, preceitos e interditos e, desse modo, transformam as normas morais em um valor por si mesmas, ao invés de vê-las como elas realmente são: meios, instrumentos, apoios para que se possa alcançar o verdadeiro bem, o verdadeiro valor.[1]
Essa confusão é uma condição que sempre se fez presente em toda história humana. Tratando especificamente do discurso moral cristão, isso acontece não por um defeito do cristianismo (ou de qualquer religião), mas por uma dificuldade que temos para identificar o que é essencial e o que é secundário. Essa dificuldade acontece dentro do processo que todos nós fazemos de busca para descobrir e compreender qual o caminho da virtude, do bem; por causa do desejo que temos por segurança, por referências claras que nos permitam saber o que fazer, o que evitar, o que é o certo e o que é o errado.
O lugar de fala interfere diretamente nesse processo. Por isso é importante tomar consciência dessa interferência, pois isso permite identificar o lugar de fala de certos discursos morais que, em nome do que chamam “moral cristã”, se apresentam muito mais representantes da moral de um lugar de fala específico do que de uma moral inspirada no “Evangelho de Jesus Cristo”.[2] Para ilustrar o que estou apresentando, vamos olhar alguns exemplos tirados da própria história do cristianismo para vermos como não é simples pensar uma moral cristã que seja realmente cristã, ou seja, que nos leve a alcançar o valor fundamental que Jesus nos ensinou que é o mandamento do amor.[3]
Em um texto antigo chamado Carta a Diogneto,[4] encontramos um trecho que fala sobre como viviam os cristãos dentro da sociedade greco-romana. Nesse texto do século II, os cristãos são apresentados como praticantes de uma vida comum, inseridos no dia a dia das cidades, mas se diferenciando por certos valores como o respeito à vida, a partilha fraterna dos bens, a caridade para com os necessitados, o cumprimento das leis da cidade como bons cidadãos. Aqueles que sofriam perseguição pelo fato de serem cristãos, e que não renegavam sua fé, eram considerados testemunhas da verdade dessa fé por sua fidelidade sem apelar para o discurso de ódio nem de vingança. Entretanto, nos séculos seguintes, após o Império Romano tornar o cristianismo a religião oficial de todo o Império, o lugar de fala dos cristãos mudou. Eles saíram da situação de perseguidos, minoria dentro do Império, da condição de uma religião de escravos, de pobres e de camponeses,[5] tornando-se uma religião de todos. Nesse novo lugar, o discurso moral cristão tornou-se o discurso oficial e, de perseguidos, passaram a perseguir os que não se submetiam a sua disciplina. Templos pagãos foram destruídos ou tomados e transformados em templos cristãos[6] sem a menor cerimônia. Em defesa do discurso religioso cristão, aconteceram perseguições e mortes. A mudança do lugar de fala construiu um discurso que justificava essa prática como manifestação da vontade de Deus. Não sei se você, leitor, recorda dos trechos dos evangelhos que ensinam a “amar os inimigos; abençoar que vos persegue; dar a outra face; não resistir ao mal, mas vencê-lo pelo bem”.[7] Parece que esses elementos ficaram meio esquecidos no discurso moral que orientava essa práxis.
Recordo outro exemplo sobre como certos valores podem mudar mediante a mudança do lugar de fala. Nesse caso, recordo a mudança que ocorre por causa da passagem do tempo.[8] Tomemos a práxis em relação ao manuseio da Bíblia. No período da Idade Média, o acesso a sua leitura e interpretação estava reduzido aos círculos eclesiásticos. Os homens religiosos que tinha acesso à instrução (ou seja, a capacidade de ler e escrever) eram os responsáveis pela conservação,  guarda, leitura e interpretação dos textos sagradas. Ao povo em geral (em sua quase totalidade analfabeto) cabia ouvir, aprender e praticar o que era ensinado para poder alcançar a salvação. Com o movimento iniciado com Lutero, a invenção da imprensa e a iniciativa de outros grupos, o texto bíblico começou a ser traduzido do latim, do grego e do hebraico para língua da população, cópias traduzidas do texto foram impressas e disponibilizadas, ampliando o acesso aos textos sagrados. Entretanto, uma das reações da Igreja Católica foi proibir que os cristãos portassem esses textos num misto de zelo pela Palavra Sagrada (pois ela poderia ser profanada nas mãos de uma pessoa sem a instrução considerada necessária para seu manuseio) e de dificuldades que começavam a se apresentar mediante os questionamentos feitos à Igreja que surgiam a partir dessas leituras.
Saltando no tempo, a Igreja Católica atualmente incentiva e orienta a leitura da Bíblia. Promove subsídios para grupos de estudo, dedica um mês do ano para falar sobre a importância da Palavra de Deus na vida dos cristãos entre outras iniciativas.[9] Eu pergunto: o que houve? O que mudou em relação à práxis moral no tocante ao manuseio da Bíblia?
O que mudou foi o lugar de fala. Nesse caso, o lugar de fala está marcado pelo elemento temporal e contextual. Ao mudar o lugar de fala, mudou também a práxis moral em relação à Bíblia.
Esses exemplos acima são exemplos ilustrativos. Eu poderia multiplicá-los em centenas de outros. O que desejo é que você, ao ler, perceba que o discurso moral cristão não pode ser tomado como um absoluto imutável, mas que ele precisa ser entendido como uma realidade em processo, que se modifica mediante o lugar de fala do qual ele parte. Alguns discursos morais que tenho visto atualmente, que se apresentam como defensores de uma pretensa “moral cristã”, me parecem marcados por uma interpretação que parte de um lugar de fala bem específico, às vezes um lugar marcado pelo medo, pelo preconceito e pela intolerância. Muitas vezes, esse tipo de discurso se apresenta como “o discurso”, ou seja, como aquele que diz exatamente o que “é o certo e o que é o errado”.  Por isso, considero importante essa reflexão estamos sobre o lugar de fala e o discurso moral religioso.
Para concluir, espero ter conseguido, até o momento, deixar clara minha perspectiva. Essa perspectiva é que esse discurso moral religioso não é um fim em si mesmo, mas que se desenvolve em função de um objetivo que é ajudar os cristãos a viverem sua vida conforme o ensinamento e práxis de Jesus, nosso Mestre e Senhor. Gostaria que ficasse evidente que esse discurso não pode ser tomado como definitivo e imutável justamente por ser um meio, um instrumento a serviço da Revelação; e que esta Revelação encontra-se a mercê de um processo interpretativo que começou com os primeiros discípulos de Jesus e que continua até hoje, sendo sua compreensão, portanto, ainda limitada, parcial, processual, inesgotada.
Na próxima postagem continuarei aprofundando essa reflexão dando um passo a mais: vamos tentar dialogar com o discurso moral religioso que se apresenta hoje partindo de casos concretos.




[1] Tenho como referência a epistemologia de Juan Luis Segundo, teólogo jesuíta que desenvolveu uma teologia em busca de diálogo com o mundo moderno, procurando tornar o discurso cristão significativo para as pessoas de hoje. Gosto muito de várias abordagens que ele desenvolve.
[2] Expressão usada pelo evangelista Marcos na abertura do seu livro: cf. Evangelho segundo Marcos, capítulo 1, versículo 1 (Mc 1,1).
[3] Na literatura joanina, encontramos expresso o mandamento do amor: Amai-vos como eu vos amei (amo). Cf. Evangelho segundo João capítulo 13, versículos 34 e 35 (Jo 13,34-35); capítulo 15, versículo 12 e 17 (Jo 15,12.17). Esse seria o único mandamento de Jesus, a práxis fundamental, o valor primeiro que deveria conduzir a construção da moral cristã. O grande desafio para os cristãos sempre foi como traduzir esse valor fundamental em uma práxis concreta.
[4] Quem se interessar pode encontrar esse texto na internet por meio de uma busca simples.
[5] Havia também pessoas instruídas, de famílias nobres e ricas que aderiam à fé cristã, mas eram em número bem menor em relação à maioria dos membros das comunidades.
[6] Quando vi o Pantheon , em Roma, percebi claramente esse processo. É um templo pagão que foi transformado em um templo cristão, entretanto, ainda é possível perceber os elementos da religião greco-romana presentes em sua estrutura e em vários elementos de sua ornamentação interna.
[7] Evangelho segundo Lucas, capítulo 6, versículo 35 (Lc 6,35); Evangelho segundo Mateus, capítulo 5, versículo 39 (Mt 5,39); capítulo 5, versículo 44 e 45 (Mt 5,44-45); Carta de Paulo aos Romanos, capítulo 12, versículos de 14 até 21 (Rm 12,14-21).
[8] MANCUSO, em seu livro Eu e Deus: um guia para os perplexos, traz em um capítulo vários exemplos de mudança no discurso moral religioso cristão católico através do tempo.
[9] Para os cristãos católicos, Setembro é considerado o mês da Bíblia. Esse mês foi escolhido por causa do dia 30 no qual celebra-se a memória de São Jerônimo que realizou importantes trabalhos para a organização e tradução dos textos bíblicos no século IV depois de Cristo.

domingo, 31 de dezembro de 2017

O lugar de fala e o discurso moral religioso (Parte I)

Estou compartilhando com vocês essa série de reflexões que venho pessoalmente fazendo a partir dessa categoria “lugar de fala”. Realmente fiquei instigado por ela. Já falamos na primeira postagem dessa série, a título de introdução, um pouco sobre um conceito geral do que seria o “lugar de fala”. Na postagem passada conversamos um pouco mais sobre a relação dessa categoria com o discurso religioso. Agora quero trazer a questão do discurso moral, mais especificamente o discurso moral cristão. Para isso vou dividir a discussão em partes, pois acredito que não é possível conversar sobre esse tema em uma única postagem. Mesmo assim, quero deixar claro que não pretendo fazer aqui tratado de tipo acadêmico, pois isso exigiria uma linguagem muito técnica e um texto bem mais denso. Quero trazer provocações para uma discussão mais profunda, por isso procurarei falar com o máximo de clareza que me for possível e dando as bases que considero necessárias para sustentar meu discurso.
Por fim, preciso esclarecer minhas motivações para ser honesto com você que está lendo. Essa reflexão me veio por eu estar percebendo o crescimento de um discurso moral de cunho religioso com fortes tendências fundamentalistas. Esse tipo de discurso geralmente se apresenta como a afirmação de uma moral que deve ser seguida porque é “divina”, fruto da “Revelação” e, por isso, é verdadeira e correta. Qualquer outro discurso moral que não esteja em sintonia com esse discurso é tido como “demoníaco”, como “mau”, como uma violência contra a verdade moral cristã.
Eu já afirmei na postagem passada que entendo “moral” como um conjunto de normas, regras, meios, os quais têm como finalidade normatizar a conduta humana em vista de alcançar um valor, um bem, um fim que se apresenta como bom, justo e verdadeiro.[1] Em outras palavras, as normas morais não são um fim em si mesmas, mas meios pelos quais se alcança um fim, sendo este um valor fundamental.
Desse modo, o discurso moral não pode ser entendido como eterno, imutável, pois ele existe em função dos valores para os quais ele se ordena. E esses valores, no mundo cristão, nos foram dados por meio da Revelação. Entretanto, como afirmei no texto anterior sobre o “discurso religioso”, ela foi e continua sendo objeto do nosso processo interpretativo, marcado pelo nosso “lugar de fala”, portanto, ainda em processo de compreensão de seu sentido pleno.
Um olhar a partir do desenvolvimento histórico do pensamento cristão facilmente revela que o discurso moral cristão sofreu mudanças na medida em que o “lugar de fala” foi se modificando.
 No Antigo Testamento há um conjunto de regras relativas à forma como os judeus deveriam se comportar para manter-se fieis a Deus e a sua Aliança. Encontramos um discurso moral que determina um conjunto de práticas que eram entendidas como as verdadeiras e corretas porque foram estabelecidas por Deus. A violação dessas normas era entendida como um acontecimento tão grave que a punição poderia ir da expulsão da convivência social até a condenação à morte do transgressor. Dentre essas normas recordo, a título de exemplo, os costumes em relação à mulher diante do parto[2] e de seu ciclo menstrual,[3] e os vários tipos de alimentos que deveriam ser evitados por ser tidos como impuros.[4] O povo de Israel deveria seguir essas orientações e se as transgredissem deveriam cumprir uma série de práticas rituais de purificação para poderem retornar ao convívio da comunidade e a participação no culto.
É interessante perceber que para os cristãos, hoje, esses fatores não são mais tidos como um problema moral. O parto é visto como um momento “divino” sem nenhuma conotação religiosa negativa e o ciclo menstrual não é motivo de separação da mulher do convívio por ser algo impuro. Isso se dá porque nosso lugar de fala é diferente do lugar de fala dos autores do texto e do lugar de fala de seus interpretes em épocas passadas. Isso não tira o valor teológico do texto, apenas nos provoca a ter cuidado com as interpretações morais que fazemos a partir dele.
Retomemos o caso dos alimentos impuros. Já no Novo Testamento encontramos uma mudança radical na prática cristã. Jesus afirma que não é o que entra pela boca do ser humano que o torna impuro, mas o que sai do seu coração.[5] No livro dos Atos dos Apóstolos encontramos a cena em que Pedro tem uma visão de um grande lençol que desce diante dele contendo todo tipo de animais e ele escuta uma voz que diz “mata e come”, porém, como um judeu fiel à Lei de Deus, ele se recusa tocar alimentos impuros. A voz então lhe diz que “não chame de impuro o que Deus purificou”. O mais curioso nesse relato, além da mudança do lugar de fala de Pedro, é o sentido dessa visão no contexto do texto, pois ela serve de preparação para que Pedro possa ir pregar o Evangelho na casa de um pagão, considerado impuro pelos judeus por não fazer parte do povo de Israel nem seguir a Lei de Deus. Em outras palavras, Deus se apresenta a Pedro com aquele quem determina o que é puro e impuro, desconstruindo a interpretação corrente da Revelação presente do Antigo Testamento. Assim, Pedro não só vai pregar na casa do pagão Cornélio, mas reconhece que eles também são chamados a fazer parte da comunidade dos cristãos, pois Deus derramou sobre eles seu Espírito.[6]
Essa primeira parte de nossa reflexão iniciou uma explanação que quer demonstrar que o discurso moral sofre variações a partir do “lugar de fala”. Aqui dei exemplos a partir do texto bíblico, que é a fonte básica da Revelação cristã. Poderia desenvolver muitos outros exemplos partindo da Bíblia, mas tomei esses por me parecerem suficientes para ilustrar minha linha de raciocínio, como também serem mais simples para apresentar em um blog. Uma análise mais profunda exigiria um desenvolvimento mais técnico e extenso, o que não é nosso objetivo nesse espaço.
Na próxima postagem continuarei essa reflexão saindo do texto bíblico e entrando na história para reforçar minha tese de que o lugar de fala interfere na interpretação da mensagem da Revelação com consequências para o discurso moral cristão.



[1][1] Esse conjunto de bens, valores ou finalidade estão o campo da ética. Existe uma vasta discussão se é possível estabelecer ou não uma ética mundial, ou seja, um conjunto de valores que sejam aceitos por todos como princípio sobre o qual se possa, então, desenvolver uma moral não necessariamente comum, mas sobre bases comuns.
[2] Livro de Levítico capítulo 12, versículos de 1até 8 (Lv 12,1-8).
[3] Livro de Levítico capítulo 15, versículos de 19 ao 30 (Lv 15,19-30).
[4] Livro de Levítico capítulo 11 (Lv 11).
[5] Evangelho de Mateus capítulo 15, versículos de 10 ao 21 (Mt 15,10-21).
[6] Atos dos Apóstolos capítulo 10 (At 10).

domingo, 24 de dezembro de 2017

O discurso religioso e o lugar de fala

Nesta postagem quero continuar a reflexão iniciada no último texto no qual tratei sobre o conceito de “lugar de fala”. Vamos avançar tentando fazer uma relação entre esse conceito e o discurso religioso.
Peter Berger,[1] em sua análise sociológica do fenômeno religioso, apresenta o ser humano como alguém que “[...] está em um mundo que precede o seu aparecimento. Mas à diferença dos outros mamíferos, este mundo não é simplesmente dado, pré-fabricado para ele. O homem precisa fazer um mundo para si”.[2] Em seu pensamento, a religião surge dentro desse processo de “construção de um mundo para sí” como forma de explicar e legitimar esse mundo.
No discurso religioso, normalmente, se parte de uma perspectiva diferente da sociológica, ele parte da ideia de que a religião surge do encontro entre o humano e uma realidade que o transcende. Especificamente no mundo cristão, a religião surge como resultado da Revelação de Deus que, atingindo sua plenitude na pessoa de Jesus Cristo, permite ao ser humano estabelecer com Deus uma relação pessoal e comunitária por meio da fé. Surgem, assim, as doutrinas, a moral cristã como normatização dos costumes e valores no âmbito pessoal e no convívio social, os ritos para conservar e comunicar os valores fundamentais da fé recebidos por meio da Revelação, o texto Sagrado como norma para a fé vivida na comunidade religiosa, entre outras coisas.
Como teólogo cristão, compartilho dessa perspectiva de que Deus se revelou por meio de Jesus Cristo e que esta Revelação tem como objetivo nos levar (todos os seres humanos) à participação na vida divina, a uma amizade com Deus, a uma comunhão de amor com ele, a uma relação pessoal com Ele, tudo isso que chamamos normalmente de Salvação. Entretanto, temos que entender que entre a Revelação e a nossa fala sobre essa Revelação existe uma mediação chamada interpretação, ou seja, uma coisa é o que Deus revelou e continua manifestando na história, outra coisa é nossa capacidade de compreender essa Revelação.
Aqui volto ao tema do “lugar de fala”, pois acredito que interpretamos a Revelação a partir do nosso lugar de fala, ou seja, de nossa cultura, de nosso tempo histórico, de nosso contexto de vida e, nesse sentido, o que Berger diz faz sentido ao colocar a religião e o discurso religioso no âmbito da construção humana, pois somos nós quem interpretamos e procuramos o sentido da Revelação.
No próprio texto bíblico podemos ver abundantemente exemplos de como o “lugar de fala” influencia o processo interpretativo da Revelação e o discurso religioso moral[3] que dele decorre. Vamos ver alguns exemplos com Jesus e Paulo!
Nos Evangelhos encontramos Jesus em várias situações de conflito com grupos religiosos de seu tempo. Lembro que Jesus não era cristão, mas judeu, portanto, seus conflitos com os grupos judaicos de seu tempo não eram conflitos entre doutrinas de duas religiões diferentes, mas eram conflitos de interpretação sobre o que Deus quis “dizer” por meio do texto sagrado sobre certos costumes e práticas que eram compreendidos como vontade divina.
Cito dois conflitos conhecidos.
Em um dia de sábado Jesus se encontrava em uma sinagoga[4] participando do shabbat[5] como todo judeu fiel e piedoso costumava (e ainda hoje costuma) fazer. Durante o culto, Jesus vê um homem que tem a mão atrofiada e o chama para o meio. Ao fazer isso, Jesus provoca a assembleia perguntando o que era ou não era permitido fazer no sábado. Para os judeus, o sábado é um dia santo, consagrado a Deus, no qual nada poderia ser feito, nenhum tipo de trabalho. Na história de Israel, grupos de judeus morreram porque não violaram o repouso sagrado do sábado para pegar em armar para se defender de um exército inimigo.[6] Então, não obtendo uma resposta dos seus interlocutores, Jesus cura o homem e provoca a ira de grupos que consideravam essa ação uma violação da lei sagrada do sábado. É evidente que o autor, ao escrever essa cena, deseja demonstrar, a partir de um “lugar de fala” diferente do usado por esses grupos religiosos judeus, que o sábado como dia santo, consagrado a Deus, deveria ser o dia por excelência para fazer o bem, para promover a dignidade da pessoa, para colocar o ser humano no centro como alvo privilegiado do amor de Deus e de sua Revelação.
Em outro episódio Jesus está na casa de Mateus fazendo uma refeição.[7] Estão sentados à mesa com ele pessoas consideradas pecadoras, impuras, segundo a interpretação religiosa dos grupos do tempo de Jesus. Esses grupos preocupavam-se com a pureza conforme estava estabelecido na Lei judaica,[8] pois procurar manter essa pureza era entendido como uma forma de ser fiel a Deus e a sua vontade. Ao questionarem porque Jesus estava em companhia dessas pessoas, o próprio Jesus responde mandando que eles aprendam a interpretar a Escritura, dando destaque ao tema da misericórdia e da compaixão.
Outro caso interessante no Novo Testamento para ilustrar como o lugar de fala influencia a interpretação que o discurso religioso faz sobre a Revelação é o da figura de Paulo. Enquanto ele era membro do grupo dos fariseus,[9] interpretava a Revelação vendo nela justificativa para perseguir os seguidores de Jesus, tidos como judeus infiéis que estavam corrompendo a fé judaica ao formarem comunidades se misturando com os pagãos e ao afirmarem que Jesus era o Messias.[10] Entretanto, ele passa por algumas experiências que o fazem repensar seu lugar de fala, fazendo-o assumir uma nova posição, agora como parte do grupo dos seguidores de Jesus. Com essa mudança, Paulo passa a interpretar a Revelação a favor desse grupo, inclusive justificando a mistura de judeus e pagãos no mesmo grupo.[11]
Poderíamos apresentar muitos outros exemplos tomando textos bíblicos desde o Antigo Testamento e outros textos do Novo Testamento, mas acredito que com esses temos o mínimo de argumentos para provocar nossa reflexão sobre o processo interpretativo que fazemos da Revelação para justificar nosso discurso religioso e nossas práticas de fé. Não quero, com isso, criar um relativismo, mas demonstrar que o processo de compreensão e acolhida da Revelação é exatamente isso: um processo! Não está acabado de forma definitiva.
As mudanças históricas pelas quais o mundo cristão vem passando estão trazendo novos contextos com novos lugares de fala que precisam ser pensados em diálogo com a Revelação cristã. Não é possível achar que tudo o que se pensa e se defende no discurso religioso cristão é certo e imutável. Há muitos elementos que precisam ser repensados à luz desse processo de interpretação e compreensão da Revelação, não num relativismo que procura adequar a Revelação ao gosto de cada um, mas na compreensão de que a verdade plena que a Revelação cristã nos comunica não pode ser alcançada em sua plenitude a partir de um único lugar de fala. Achar que o nosso lugar de fala é o único válido para interpretar a Revelação cristã é reduzir a Revelação ao discurso religioso de uma cultura, a um ponto de vista que se pretende universalmente válido. A isso eu chamo de reducionismo!
É em diálogo entre os diversos lugares de fala que a Verdade plena que a Revelação cristã comunica pode ser compreendida.





[1] BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas, 1985.
[2] BERGER, 1985, p.18.
[3] Uso aqui o termo “moral” na perspectiva de um conjunto de normas que estabelecem os costumes, práticas e interditos que um grupo social deve seguir, e que são aceitos como válidos para um convívio sadio em vista de uma ética do bem, da justiça, da verdade, do amor.
[4] No Evangelho de Marcos, capítulo 3, versículos de 1 ao 6 (Mc 3,1-6).
[5] É o dia de cessação do trabalho, dia de descanso semanal no judaísmo, simbolizando o sétimo dia em Gênesis, após os seis dias de Criação e também da memória da libertação da escravidão do Egito. Observância do Shabbat na religião judaica implica abster-se de atividades de trabalho, muitas vezes com grande rigor. Nesse dia os judeus se reúnem nas sinagogas para a leitura e meditação da Lei e para as orações em comum.
[6] No livro primeiro livro dos Macabeus, capítulo 2, versículos de 29 até o 38 (I Mc 2,29-38).
[7] No Evangelho de Mateus, capítulo 9, versículos de 10 até o 13 (Mt 9,10-13).
[8] No livro de Levítico encontra-se um conjunto de prescrições sobre usos e costume que os judeus deveriam seguir para permanecerem puros diante de Deus e, assim, poder Lhe prestar um culto que fosse agradável.
[9] Os fariseus eram um dos grupos religiosos do judaísmo no tempo de Jesus e das primeiras comunidades dos seguidores de Jesus. Eles se caracterizavam por um zelo no cumprimento da Lei judaica, especialmente no tocante as questões de pureza e de cumprimento dos preceitos estabelecidos (ex.: pagamento dos dízimos, os jejuns, o sábado etc).
[10] A figura do Messias refere-se a esperança de Israel, no tempo de Jesus, de que Deus enviaria um salvador para libertar seu povo do julgo dos povos que o oprimiam e restauraria a nação politicamente e religiosamente.
[11] Basta ver na Carta aos Gálatas e na Carta aos Romanos como Paulo reinterpreta textos da tradição judaica para fundamentar seu discurso a partir desse novo lugar de fala.

domingo, 17 de dezembro de 2017

O “lugar de fala”: uma provocação, uma porta aberta para a reflexão

Outro dia estava assistindo a uma entrevista de Djamila Ribeiro sobre seu livro O que é o lugar de fala?, pela editora Letramento (2017). Ainda não tive a oportunidade de ler o texto, mas a entrevista me chamou a atenção para o tema e me pus a refletir sobre suas implicações também para a “fala” religiosa, “fala” teológica, pois é uma fala que também tem um lugar. Até me recordei de uma frase famosa do Leonardo Boff: “todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão do mundo”.[1] Parafraseando esse pensamento, para entender o que alguém está falando é preciso ver de onde (não só fisicamente, mas culturalmente, socialmente, politicamente, religiosamente etc) esse alguém está falando.
Pretendo ler o livro, mas enquanto não posso, as ideias que o conceito “lugar de fala” me provocaram pretendo desenvolver em algumas reflexões por aqui em uma série de postagens.
Começo com a própria ideia do “lugar de fala”. Realmente não pensamos muito nisso, mas todos nós temos um lugar de fala. Sem exceções!
Ninguém pode dizer que é “neutro” no sentido de conseguir contemplar todas as perspectivas em sua fala. Todo discurso, inclusive o teológico, tem seu "lugar de fala" seja o lugar da pessoa do teólogo, da escola teológica, da cultura em que esse pensamento é produzido com seu tempo e contexto.
Isso tem uma primeira consequência que é: eu, que estou escrevendo, também tenho um "lugar de fala". Esse meu texto tem um lugar de onde ele parte, não é inocente. Isso significa que outras pessoas, com outras perspectivas, irão lê-lo e, a partir do seu próprio "lugar de fala", vão criticá-lo, positiva ou negativamente, e tenho que entender que esse processo sempre irá acontecer.
Você que me lê precisa saber que os próximos textos que publicarei partirão dessa perspectiva do “lugar de fala” para analisar algumas questões relacionadas ao discurso religioso e teológico.
Você, cara leitora e leitor, poderão identificar meu "lugar de fala" na medida em que forem lendo meus textos nas próximas semanas. Também vocês irão se identificar ou não com esse meu lugar, concordar ou não com os pontos de vista que apresentarei, mas saibam que vocês farão isso também a partir de seu próprio "lugar de fala".
Espero que essa provocação ajude a fazermos, juntos, um interessante caminho de reflexão que nos permita tomar consciência dessa realidade e a, se for o caso, repensarmos de onde estamos falando, de qual “ponto de vista” estamos lendo a vida que nos cerca. Talvez chegarmos até a ter a coragem de repensarmos criticamente o nosso atual “lugar de fala”, naquela experiência existencial e espiritual que chamamos de metanoia (palavra grega para conversão, mudança profunda de vida, transformação radical das raízes do nosso coração com seus valores), em vista de nos tornamos mais próximos ao ser humano sonhado por Deus, a Sua “imagem e semelhança”.

Um abraço!





[1] BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1998, p. 9.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Um Deus humano para um humano divino

Olá pessoal.

Faz mais de um ano que não passo por aqui! Aconteceram tantas coisas que acabei deixando um pouco de lado este espaço. Pretendo retomar as postagens com novos textos, sempre procurando trazer uma reflexão que dialogue com a vida, com o que está acontecendo ao nosso redor, com a fé que alimenta a nossa caminhada, com tudo o que nos toca como pessoas que vivem e lutam nessa vida.
Espero podermos, juntos, trocar ideias, aprendendo uns com os outros a viver nossas vidas conduzidas pelo Espírito de Deus, que age dentro de nós para nos humanizar como humanizou Jesus de Nazaré desde o seio da Virgem Maria.
“Humano assim só pode ser Deus mesmo” (Leonardo Boff), é essa humanização que esse Espírito quer fazer em todos nós, pois em Jesus de Nazaré se revela o que há de mais autenticamente humano, o que somos chamados a ser desde o início de nossa existência. Todo o processo de desenvolvimento por que passamos é em vista da nossa humanização.
O Papa Leão Magno também dizia “Jesus é humano, muito humano, tão humano como só Deus pode ser humano”. Como imagem e semelhança de Deus, manifestamos em nossa humanização a glória de Deus e de sua divindade. Todos nós somos responsáveis por contribuir nessa obra do Espírito que procura nos humanizar, para que um dia possamos todos reconhecer a face gloriosa de Deus no rosto de cada pessoa que encontrarmos, sem ódios e sem divisões, sem injustiças e sem violência, sem preconceitos e sem medos.
Neste tempo de Espera (Advento), reflitamos sobre o sentido de um Deus que desce e quer ser um conosco, um como nós. Aprendamos com ele o caminho para sermos plenamente humanos. Meditemos como sua gloriosa divindade revela-se no rosto humano do nazareno e deixemo-nos ser tocados por esse mistério divino-humano.

Boas festas! Um feliz Natal e um abençoado ano novo para todos!

O lugar de fala e o discurso moral religioso (Parte IV)

Nesta última postagem dessa série dedicada à questão do lugar de fala e do discurso moral religioso, quero compartilhar com você o que vi ...