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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O DIREITO DO POBRE (parte I)

Vou começar a postar, por partes, este texto sobre O DIREITO DO POBRE. De maneira breve, partiremos da reflexão bíblica, passando pela patrística e pela escolástica, para chegar na doutrina social da Igreja hoje. O texto que tomo por base estará explicitado no final de cada postagem. Espero que os leitores gostem.



O DIREITO DO POBRE (parte I)




O pobre tornou-se tema central na reflexão teológica pós-conciliar na América Latina a partir de Medelín. A situação de sofrimento e opressão sob regimes autoritários levou grande número de teólogos a procurar respostas, a partir da Revelação, para esta realidade. Seguindo a inspiração do Concílio Vaticano II de “retorno as fontes”, uma riqueza inestimável dentro da Sagrada Escritura e da Tradição da Igreja foi reavivada no diz respeito a compreensão a partir da fé sobre o direito do pobre.

Ø      Antigo Testamento
Começando pelas escrituras encontramos uma profunda consciência solidária diante do pobre e de suas necessidades já no Antigo Testamento: Respeito e bem ao próximo (Ex 20, 15-17); justiça no contrato de trabalho e no comércio (Dt 24,14-15); direito de justiça a todos, inclusive o estrangeiro (Dt 24, 17-18).
Os profetas denunciam que o culto e a vida religiosa sem justiça aos pobres são vazios, inúteis, e Deus se aborrece deles: Am 5, 21-24; Is 1, 11-17; 58, 3-11; Mq 6, 6-8; Jr 7, 4-7.
É evidente o condicionamento entre a aliança divina e o respeito pelo direito do pobre dentro da tradição do A.T.

Ø      Novo Testamento
Aqui encontramos Jesus que proclama o direito do pobre, mas também proclama o amor que realiza este direito, indo muito além das exigências da justiça. Por exemplo: usar os bens transitórios para um dia alcançar os bens eternos (Lc 16, 10-12); não se pode servir a dois senhores (Lc 16, 13).
Os pobres são cidadãos do Reino com mais facilidade que os ricos, pois estes são estranhos ao Reino, pois a riqueza cega, é uma verdadeira forma de idolatria. A saída para os ricos é partilhar “as riquezas injustas” (Lc 16, 9.11): injustas porque foram mal adquiridas (Lc 19, 1-10), ou porque excedem as verdadeiras necessidades de seus detentores.
O N.T. nos mostra que Cristo é pobre, e é o pobre que nos julgará (Mt 25, 31-46; Tg 5, 1.4).

O pobre numa visão positiva: tanto o A.T. como o N.T. apresentam o “ser pobre” também como uma atitude espiritual, sendo aquele que se contenta com o necessário para viver, que é humilde, que não confia nas riquezas nem exige direitos diante de Deus. Por isso são os prediletos de Deus, como Maria anuncia no Magnificat (Lc 1,52-53). Deus escolheu os pobres (Tg 2, 5), tanto é que para ser discípulo de Jesus a pobreza é uma condição apresentada nos evangelhos(/mt 19,16-30; Mc 10,17-31; Lc 18,18-30). Temos, então, duas perspectivas: os pobres que o são porque deixaram tudo para dar um testemunho ao mundo dentro do discipulado de Jesus; e temos os pobres que o são porque partilham de seus bens mantendo apenas o necessário para viver (Lc 6,20.24).

BIGO, Pierre; ÁVIA, Fernando Bastos. Fé cristã e o compromisso social: elementos para uma reflexão sobre a América Latina à luz da Doutrina Social da Igreja. 2a ed., São Paulo: Paulinas, pp. 159-227, 1983.

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