segunda-feira, 11 de julho de 2011

O túmulo de um profeta


Na semana passada participei do retiro anual do clero de nossa diocese. Foi uma semana muito boa de oração, reflexão, convivência fraterna e descanso. Entretanto, Deus me presenteou com algo mais...
Nosso retiro foi no santuário do Pe. Ibiapina (padre que fez um bonito trabalho missionário em nosso nordeste) chamado de Santa Fé, na Paraíba.

Foi grande a minha surpresa ao chegar neste lugar e descobrir que o Pe. José Comblim (Joseph Comblin) estava sepultado naquele lugar...
Para quem não o conhece, este padre, nascido em Bruxelas, na Bélgica, em 1923, ordenado sacerdote em 1947 e que mudou para o Brasil em 1958, foi um dos grandes pensadores atuais da Igreja. Renomado teólogo e defensor dos pobres foi expoente da teologia da libertação, seguidor e assessor do bispo brasileiro Dom Hélder Câmara, defensor dos direitos humanos e da opção da Igreja pelos pobres. Hélder Câmara ficou conhecido como o "bispo vermelho" durante a ditadura brasileira.

Fiz questão de ver onde ele foi sepultado e fiquei emocionado e surpreso. O que eu encontrei? Uma cruz de madeira cravada num chão de terra com uma estola pendurada sem nenhuma ostentação. Ele foi sepultado de forma simples, no chão, sem túmulos de mármore e esculturas, honrarias ou ornamentos. O que enfeita sua sepultura é uma grama verde que cresce sobre o lugar com pequenas plantas floridas.
Talvez alguém não veja nada demais nisso, mas para mim foi profundamente significativo. Lembrei-me da passagem do evangelho que fala da semente que precisa morrer na terra para germinar... Aquela imagem foi para mim simbólica (que reúne significado/sentido).

Vi naquela sepultura o retrato da vida deste padre: simples, desapegado, livre para seguir o seu Senhor, participando da pobreza evangélica que desmascara a ilusão do poder e da riqueza, profeta que mesmo na morte testemunha o amor e a opção pelos pobres crucificados nos altares do nosso egoísmo e ambição.

Lembrei-me de quando ele morreu (no dia 27 de março em Salvador, no Brasil, de causas naturais. Ele tinha 88 anos), dos depoimentos bonitos de quem o conheceu e de quem bebeu de seu pensamento teológico. Das várias homenagens e artigos publicados sobre suas obras, sua vida e seu trabalho.
Também vi críticas ao seu pensamento e a alguma de suas posições... Para dizer a verdade, sei que Pe. Comblim tinha posições que nem todos concordavam, que ele era polêmico e crítico...

Sei que alguns o consideravam uma espécie de “herege” dentro da Igreja e que o criticavam duramente (alguns até sem nunca ter lido uma linha do que ele escreveu). Entretanto, não se pode desmerecer o valor e a contribuição que este homem deu a Igreja que ele amava e procurava ajudar, do seu modo, a encontrar caminhos de liberdade, de esperança, de caridade, seguindo o Mestre pelas estradas deste mundo plural e urbano.

Apesar de saber dos limites e problemas de algumas de suas reflexões, para mim o Pe. Comblim foi uma daquelas figuras proféticas, que incomodaram por não aceitar a realidade de modo acomodado e conformista, mas, tendo o ideal do evangelho ardendo dentro do seu coração, tentou ler os sinais dos tempos e interpretar a vontade de Deus para o momento presente. Ele questionava as estruturas da Igreja ao considerar seus limites para responder aos desafios atuais; criticava as estruturas político-econômico-sociais geradoras de desigualdade, pobreza, exclusão e morte. Ele tinha aquela capacidade de ler a realidade com um olhar que destoava do comumente aceito, tocado nas feridas e chamando a conversão: mudança profunda de mentalidade e de atitudes.

Ollhando aquela sepultura rezei.... Agradeci a Deus por este profeta dos nossos tempos, pelo seu testemunho coerente com seu pensamento: deixou tudo, seu país, sua cultura, os privilégios, e se inseriu no caminho dos pobres da América Latina até descer a “morada dos mortos”... Pedi a Deus que perdoasse seus excessos e impulsividades, suas fraquezas e “enganos” de boa vontade... Rezei para que o Espírito que o animou durante a vida se faça presente em muitos outros cristãos e cristãs para que a profecia não desapareça, mas se multiplique, como diz a parábola: “a semente morre para dar fruto” e o fruto seja “cem, cinquenta, trinta por semente”.

Aos que conseguiram ler este texto até este pondo, antes de concluir, quero recomendar que pesquisem na internet para conhecer a biografia deste servo de Deus. Procurem conhecer seus livros, leiam alguns deles e, só então, formem sua opinião sobre o pensamento deste teólogo... Concordando ou não com ele, certamente você sairá enriquecido(a) com a reflexão.

Nunca imaginei que uma sepultura me tocasse e me falasse tanto!

Obrigado Pe. Comblim! E olhe por nós, por este Povo de Deus que caminha nas estradas deste mundo, rumo ao Reino que Jesus anunciou e manifestou com a própria vida.

Pe. Augusto Lívio


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