quarta-feira, 4 de maio de 2011

Quem é a favor e quem é contra a beatificação de João Paulo II ?

Diante de todo o movimento feito em torno da batificação do venerável Papa João Paulo II, muita coisa interessante apareceu na rede. Li grandes elogios a este homem único do final do século XX, como também li  criticas a sua beatificação diante de diversas questões que vieram a tona no início deste século XXI.

Achei interessante postar aqui pelo menos um texto de cada ponto de vista. Por isso o título desta postagem é "Os que são a favor e os que são contra a beatificação de João Paulo II"

Leia as postagens e tire sua próprias conclusões. Acho interessante podermos ver este debate, por isso o compartilho com todos vocês.

Boa reflexão!!

> A perspectiva de alguém que se opõe a beatificação de João Paulo II:

Teólogo não perdoa João Paulo II pelo ''doloroso isolamento'' de Oscar Romero

O teólogo italiano Giovanni Franzoni, que foi abade da Basílica de São Paulo Extramuros testemunhou em 2007 no Vaticano contra a beatificação de João Paulo II, a quem não perdoa pelo "doloroso isolamento" do bispo salvadorenho Óscar Arnulfo Romero, assassinado em 1980 por paramilitares enquanto rezava a missa.

A reportagem é do sítio Religión Digital, 28-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor faz parte do grupo de teólogos e intelectuais que criticam a beatificação do dia 1º de maio de João Paulo II. Como nasceu essa iniciativa?
Além de querer manifestar nossa condenação à repressão do pensamento teológico católico, fiquei pessoalmente afetado pelo isolamento sofrido pelo bispo Óscar Arnulfo Romero, arcebispo de San Salvador. Eu vivia em Manágua, Nicarágua, trabalhava no centro Valdivieso, e uma freira me confiou que havia encontrado Romero em Madri, de regresso do Vaticano em 1979, destruído, aflito após a audiência com o Papa. Dizia que nunca havia se sentido tão sozinho como depois desse encontro.
Ele sempre foi um moderado, mas o fato de os campesinos que podiam tomar posse da terra após a reforma agrária terem sido encontrados com gente armada, o indignou. Por isso, pôs a disposição a emissora da diocese, em que eram denunciadas todas as atrocidades e violações dos direitos humanos, a matança de sindicalistas salvadorenhos. Inclusive o assassinato de um próximo colaborador seu. Ele levou toda essa documentação ao Vaticano.
O Papa foi frio, tomou a documentação e a pôs de lado, enquanto comentava: "Disse mil vezes que não me tragam tantos documentos que não consigo ler", e o exortou: "Trate de estar de acordo com o governo". Isso lhe deixou consternado, o destruiu.
Os esquadrões da morte não podiam matar um bispo que estava no coração do Papa. Podiam matá-lo só se estivesse isolado, abandonado.

Quais são as objeções que o senhor fez oficialmente ao Vaticano?
Como a Congregação para as Causas dos Santos anunciou que podiam ser levadas provas em favor ou contra da beatificação de Karol Wojtyla, eu resolvi, junto com outros teólogos e historiadores, enviar, com uma carta certificada, uma documentação ao vicariato de Roma, com a qual considerávamos os limites do seu pontificado. Depois de um ano e meio, me convocaram oficialmente. Fiz sete objeções fundamentais.
Em 27 anos de pontificado, após viajar por todo o mundo, cheguei à conclusão de que ele não havia feito nada para esclarecer o papel da mulher na Igreja. Ignorou a teologia feminista. Outra coisa que me tocou foram os tráficos financeiros do Vaticano. O papel deDom Paul Marcinkus, presidente do Instituto para as Obras Religiosas (IOR), que foi protegido. O pontífice violou gravemente a virtude da prudência e da força.
O Tribunal vaticano foi respeitoso comigo e me pediu que não publicasse nada até que o processo fosse concluído.
Entre as objeções figura a forma como ele tratou os casos de pedofilia?
Não. Esse é o oitavo ponto. O caso estourou depois. João Paulo II é o responsável por ter protegido o arcebispo deViena, Hans Hermann Groer, seu amigo pessoal, que teve que renunciar a pedido dos outros bispos. Um caso único. Não foi processado, simplesmente renunciou.

O senhor não acredita no milagre aprovado pelo Vaticano?
Poderia responder que sim, mas que não se deve sacralizá-los. Também poderia responder que não, não acredito nos milagres. No Evangelho, diz-se que Jesus multiplicou o pão e os peixes para dar de comer às pessoas, e que as pessoas o seguiram contentes. Depois lhes disse: "Vocês me seguem porque lhes dou de comer. Sigam-me por minha palavra". Demoliu assim o milagre.
O milagre é ambíguo. Pode enviar sinais parar atingir nossas emoções e fantasias com fatos excepcionais, mas são frutíferos se servirem para mudar. Se substituem o pão que é preciso comprar é algo ridículo.

Vê mais sombras do que luzes no pontificado?
Misturam-se duas figuras: o Papa como homem e o Papa como político. No documento que eu enviei ao Vaticano, reconheço-lhe uma atitude humana, como na segunda Guerra do Golfo, quando convidou o número dois do regime do Iraque ao Vaticano, um ato forte, e por ter clamado pela paz. Eu, pessoalmente, sou contra essas canonizações, acredito que são algo arcaico. O que conta são as perseguições do primeiro século, os mártires. Essa fábrica de santos, para os quais é preciso demonstrar um milagre, não sei. Para mim são santos os que tentaram apagar o reator de Fukushima, no Japão, sabendo que morreriam. Eles sim são santos.



> A perspectiva de alguém que é a farvor da beatificação de João Paulo II:

Um liberal que gosta do beato João Paulo II

"Os santos não foram perfeitos. Eles foram humanos. você não tem que concordar com tudo o que um santo disse ou escreveu para admirá-lo/la. A meu ver, qualquer pessoa que visita a cela da prisão do seu suposto assassino e perdoa esse homem é um santo".

A opinião é do jesuíta norte-americano James Martin, editor de cultura da revista dos jesuítas dos EUA, America. Martin é autor de best-selllers dos EUA como My Life with the Saints [Minha vida com os santos] (2006) e The Jesuit Guide to (Almost) Everything: A Spirituality for Real Life [O guia jesuíta para (quase) tudo: Uma espiritualidade para a vida real] (2010).

O artigo foi publicado no blog In All Things, do sítio da revista America, 26-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu sou um católico "liberal". Também sou um admirador do Beato João Paulo II.
Essas duas coisas podem parecer contraditórias, especialmente com a crescente consternação, em alguns círculos, com relação à perceptível "pressa" da sua beatificação. Em suma: a Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano renunciou ao período de espera normal de cinco anos antes de começar o seu processo ou "causa". Embora isso não seja sem precedentes (a causa da Madre Teresa também foi acelerada), o espaço entre a sua morte e a sua beatificação certamente o é.

Houve também preocupações legítimas sobre se ele merece ser homenageado em função daquilo que são vistos como os seus erros como papa. Além das queixas vociferantes sobre o tratamento dado por ele às crises dos abusos sexuais em todo o mundo, muitos se opuseram ao seu antigo apoio ao fundador agora desacreditado da Legião de Cristo, o padre Marcial Maciel, que mais tarde foi revelado como um dos piores de todos padres abusadores. (Defensores respondem que João Paulo fez o que pôde com relação ao abuso; que ele era idoso e doente; e que ele foi enganado por Maciel).

Quanto à pressa, e como alguém que tem escrito sobre os santos, eu sou a favor de que cada candidato seja sujeito ao mesmo cuidadoso processo de análise. Por um lado, é injusto favorecer alguém simplesmente porque ele ou ela é mais conhecido/a. Por outro lado, pode dar a impressão de que tudo está sendo feito da forma mais rápida (especialmente quando alguns dos que supervisionam o processo foram colocados em seus cargos pelo próprio candidato), possivelmente manchando a reputação do santo para as gerações futuras.

Por outro lado, o Vaticano é muito claro ao responder à vontade do povo, milhões dos quais são devotos do Papa João Paulo II ("Santo subito!", gritavam eles em seu funeral). Como a Madre Teresa, ele é objeto do que os teólogos chamam de "devoção popular". Ironicamente, algumas das mesmas pessoas preocupadas com a pressa da canonização são aquelas que também acreditam que o Vaticano precisa "ouvir" mais cuidado e mais frequentemente a voz do "Povo de Deus". Então: eles estão ouvindo.

Mais importante ainda, um milagre atribuído à intercessão do falecido Papa (isto é, às suas orações do seu posto no céu a Deus) foi autenticado pelo Vaticano. Assim, Deus parece estar em favor da pressa. Isso deveria servir como trunfo para a maioria das preocupações das pessoas.

Quanto a divergências sobre o seu papado, eu mesmo tinha minhas diferenças com o Papa João Paulo II, tecnicamente meu ex-chefe. (Quem não discorda do chefe de vez em quando?). Ele nem sempre foi o maior fã da Companhia de Jesus (também conhecida como os Jesuítas, a minha ordem religiosa), embora algumas de suas suspeitas parecem ter se originado junto a alguns de seus assessores.

Quando, em um movimento sem precedentes em 1981, ele repentinamente removeu Pedro Arrupe, o amado superior-geral dos jesuítas, do seu posto, um grande número de jesuítas ficaram desanimados e irritados. João Paulo, suspeito com o trabalho dos jesuítas na "teologia da libertação" (uma abordagem que enfatiza a libertação dos pobres do sofrimento, como Jesus tinha), aparentemente foi informado por alguns conselheiros de que os jesuítas seriam desobedientes após a sua demissão pública de Arrupe . Nós não o fomos. Ao longo dos anos, várias fontes me disseram que João Paulo ficou surpreso com a nossa fidelidade – e satisfeito. Ele mudou sua opinião sobre os jesuítas. Anos depois, ele visitou o adoentado Arrupe antes da morte do jesuíta. (Aliás, eu acredito que o Padre Arrupe foi um santo).

No entanto, eu sou um admirador de João Paulo, uma pessoa a quem o filósofo Hegel sem dúvida chamaria de uma figura "histórico-mundial". Como pode ser isso? Para explicá-lo, deixe-me indicar duas coisas que têm estado largamente ausentes de alguns dos comentários críticos.

Primeiro, os santos não foram perfeitos. Eles foram humanos. A santidade sempre tem o seu lar na humanidade. E os santos, profundamente conscientes de suas próprias faltas, seriam os primeiros a admitir isso. A santidade não significa perfeição. A noção de que um santo comete erros – até mesmo grandes – parece não ter ocorrido a poucas pessoas. Errar, afinal, é humano. Seus defensores podem admitir que João Paulo foi humano e cometeu erros – até mesmo grandes? E seus críticos podes perdoá-lo pelos erros que fez durante o seu tempo na Terra?

Segundo, e talvez de forma mais importante, você não tem que concordar com tudo o que um santo disse ou escreveu para admirá-lo/la. Um dos meus santos preferidos éThomas More, mártir inglês do século XVI, que a maioria das pessoas conhecem da peça (e do filme) O Homem que Não Vendeu sua Alma. Mas eu não concordo – para dizer o mínimo – com o seu apoio à queima indiscriminada de "hereges" (ou seja, de não cristãos). Nisso, nós nos dividimos.

Uma autoridade do Vaticano afirmou recentemente que o Papa Bento XVI está beatificando seu antecessor por quem ele era como pessoa, não pelo que ele fez durante o seu papado. Em suma, ele não está sendo nomeado "beato" por suas decisões como Papa. Isso faz sentido. A beatificação (e, posteriormente, a canonização) não significa que tudo o que ele fez como Papa esteja agora de algum modo além da crítica. (Nada mais do que tudo o que São Thomas More fez está além da crítica: será que devemos acreditar que os hereges devem ser queimados porque More foi canonizado?). Por outro lado, essa linha de pensamento é um pouco mistificadora: porque você não pode separar as ações de uma pessoa da sua vida pessoal.

Mas a ênfase sobre a vida pessoal é importante. A Igreja beatifica um cristão, não um administrador. Sob essa luz, João Paulo II claramente merece ser um beato e, posteriormente, um santo. Karol Wojtyla, certamente levou uma vida de "santidade heróica", como diz a frase tradicional. Ele foi fiel a Deus em situações extremas (nazismo, comunismo, consumismo). Ele foi um "evangelista" incansável, isto é, um promotor do Evangelho, mesmo em face de uma enfermidade grave. E ele trabalhou ardentemente pelos pobres do mundo, como Jesus pediu que seus seguidores fizessem.

O novo beato era orante, destemido e zeloso. Foi, em suma, santo. E, a meu ver, qualquer pessoa que visita a cela da prisão do seu suposto assassino e perdoa esse homem é um santo.

Assim, depois de sua beatificação, eu vou rezar para o falecido Papa por sua intercessão. Do seu lugar no céu, ele vai entender se eu nem sempre concordei com ele sobre cada questão ou decisão. Ele não vai estar preocupado com isso. De fato, na companhia de Jesus, de Maria e dos santos, essa será a última coisa que Karol Wojtyla vai estar pensando.
Beato João Paulo II, rogai por mim.




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